Viagem ao Centro da Terra

On peut braver les lois humaines, mais non résister aux lois naturelles*

Júlio Verne**l

Ao decidirmos que o tema deste número seria “a remediação dos solos”, o meu primeiro impulso foi fazer as malas e entrar no mundo maravilhoso e visionário de Júlio Verne – Voyage au Centre de la Terre (1864) – antes mesmo de decidir se me assumiria como o Prof. Otto Lidenbrock, cientista e sonhador, ou como Axel, jovem romântico a quem é dada a oportunidade de uma viagem ímpar. Nos dois casos, seria certo o fascínio da descoberta, o sonho de “mergulhar” no solo, que chega a ser mar e depois pode ser expelido e voltar à superfície… A viagem ainda não começou: procuro o vulcão certo, o local em que iria surgir. Tentada por Stromboli receio que essa escolha tenha um petit rien de déjà vu.

Podemos encarar o solo enquanto terra, concepção clássica, ou como recurso natural limitado, mas potencialmente renovável. Seja qual for o olhar, sabemos que a contaminação dos solos pode ter origem natural ou antropogénica, pesando aqui as actividades industriais – mineração, bélica, agrícola e pecuária – e as actividades municipais, potenciadas pelo crescimento exacerbado das cidades e pela inerente produção de resíduos.

Actividades passadas, e atuais, contribuem para a acumulação dum passivo ambiental e duma poluição pontual ou difusa, com impactes que se repercutem na população, na saúde e no ambiente, e tudo isto associado a questões da qualidade do ar, da qualidade das águas subterrâneas e superficiais comprometendo a produtividade agrícola e florestal do solo.

Estima-se, por exemplo, que no Espaço Económico Europeu existam cerca de três milhões de locais potencialmente contaminados fruto da industrialização intensiva e da ausência de políticas e de práticas de gestão ambiental. Noutro continente, a China assumiu que 16% da sua área de solo, e nela19% da área dos solos agrícolas, estaria contaminada.

A lista dos principais contaminantes engloba metais pesados, hidrocarbonetos e outros derivados do petróleo, pesticidas, herbicidas, fertilizantes, compostos emergentes e os próprios microplásticos, apesar de, a este respeito, não ter sido ainda feito um levantamento específico.

A preocupação com as áreas contaminadas, e a premência de encontrar soluções para a remediação e recuperação dessas áreas, explicam-se pela necessidade de cuidar da saúde das populações e, também, com a preservação dos próprios ecossistemas e da biodiversidade.

Um só dado explica por que razão é urgente acabar com a contaminação dos solos e recuperar os que possam estar contaminados: 9% da população mundial, 820 milhões de pessoas, passa fome e/ou está malnutrida.

A remediação dos solos pode constituir-se como instrumento para o cumprimento do Objectivo 2 dos ODS – Acabar com a Fome. O combate às alterações climáticas é seguramente outro dos benefícios da recuperação dos solos e da sua produtividade agrícola ou florestal, porquanto esses potenciais cobertos vegetais podem assegurar a captura de carbono e evitar o excessivo escoamento superficial da água das chuvas, viabilizando a recarga de água subterrânea.

Existem já tecnologias para a remediação e recuperação dos solos contaminados, o que seguramente, e enquanto não se consegue colmatar o problema na origem, nos deixa uma réstia de esperança: temos know how necessário para a remediação de solos contaminados, agora é preciso aplicá-lo.

Quero agradecer à co-editora Ana Antão, com uma menção especial para Paulo Sá Caetano, por todos os seus valiosos contributos para a organização deste número.

De contaminação de solos e das soluções tecnológicas já encontradas para a sua remediação, do enquadramento legal e dos desafios que se colocam face a este problema, falam os convidados deste número, em artigos e numa entrevista, com conhecimento e entusiasmo, e com a experiência da realidade portuguesa e brasileira. A todos muito obrigada. E também aos leitores: vamos ao trabalho.

*Podemos afrontar as leis humanas, mas não podemos resistir às da natureza (tradução nossa)

** Vingt mille lieues sous les mers (1869-1870)

Editorial da Indútria e Ambiente nº124 set/out 2020

Leonor Amaral

Diretora da Indústria e Ambiente / Professora na FCT-UNL

Se quiser colocar alguma questão, envie-me um email para lmma@fct.unl.pt

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