Análise de ciclo de vida

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Não, Jacinto, não… Eu venho de Guiães, das serras; preciso entrar em toda esta civilização, lentamente, com cautela, senão rebento. Logo na mesma tarde a eletricidade, e o conferençofone, e os espaços hipermágicos e o feminista, e o etéreo, e a simbolia devastadora, é excessivo!

Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, 1901

Antes das serras, Jacinto, despreocupado, vivia na “civilização” – Paris – entre estantes com mais de 30 mil volumes. Noutras divisões do palacete reinavam objectos e iguarias, sinais de um luxo redundante. Esta personagem queirosiana, compreensivelmente, não se preocupava com a origem e o percurso do que o cercava, querendo só saber se as matérias-primas usadas eram de qualidade. O mundo de Jacinto estava longe de cuidar das actividades económicas sob o ponto de vista ambiental, considerando o processo desde a aquisição de matérias-primas até ao consumo final, aspectos cobertos pela análise do ciclo de vida (ACV).

Jacinto, se quisesse água com gelo, tê-la-ia, possivelmente vindo dos Altos Alpes. Se estivesse no Rio de Janeiro, beneficiaria do privilégio do gelo graças ao empreendedorismo de Frederic Tudor, pioneiro no comércio internacional de gelo, para isso promovendo a utilização de dois produtos então considerados inúteis: blocos de gelo extraídos da natureza e serradura, isolante para esse transporte. O que agora seria uma boa notícia para a economia circular, nem sempre se revelou tarefa óbvia. O primeiro carregamento de gelo para a Grã-Bretanha, perante a estupefacção dos agentes alfandegários que não sabiam taxar o produto, derreteu antes de sair da doca.

Se fosse hoje, Jacinto, o avant la lettre, não satisfaria o desejo de um refrigerante gelado servido numa garrafa de vidro sem recorrer à ACV do produto, sem atender à produção das garrafas, às necessidades da captação da água, à preparação do refrigerante, ao enchimento e embalamento, transporte, armazenamento e à produção de resíduos e emissões associadas a todas as etapas. Estes estudos globais, complexos, nem sempre são acessíveis do ponto de vista económico.

A ACV é um instrumento indispensável para as empresas e os governos, no apoio às políticas públicas, à transparência, à inovação e no apuramento das vantagens competitivas, nomeadamente, no relativo às metas da descarbonização e da economia circular. O Pacto Ecológico Europeu incorpora as metodologias ACV com vista à rastreabilidade das cadeias produtivas, dando-lhe uma visão multifactorial dos impactes ambientais, muito além de apenas carbono, englobando consumos de água, acidificação de ecossistemas ou, entre outros, produção de resíduos.

A ACV traduz uma nova forma de pensar, sistemática e integrada, que nos recorda que cada produto tem uma história que começa muito antes de chegar às nossas mãos e continua muito depois do seu uso.

Num mundo que precisa de conciliar prosperidade com limites planetários, a ACV não é um luxo académico, mas uma necessidade estratégica.

Este número da revista, que o professor António Guerreiro de Brito, na sua ilustre e sábia humildade aceitou co-editar, conta com contributos exemplares e generosos de outros especialistas, a quem muito agradeço. Os artigos tratam da história da ACV, das suas muitas aplicações, dos seus desafios, das suas metodologias e conquistas.

E volto a Eça. Que pensaria o nosso protagonista, nos tempos palacianos nos Campos Elíseos ou na velha construção granítica de Tormes sobre o futuro da ACV, tendencialmente mais próxima de escolhas individuais, rotulagens ambientais, aplicativos de comparação de produtos e relatórios transparentes que já são realidade em alguns países? A ACV implica uma mudança de mentalidade dos consumidores. E recorrendo a um Cardoso Pires, corrompendo um título de sua lavra, pergunto, adaptando: “E agora, Jacinto”?

Editorial da Indústria e Ambiente nº 154, setembro/outubro 2025, dedicada ao tema "A Análise do Ciclo de Vida e a Circularidade"

Leonor Amaral

Diretora da Indústria e Ambiente / Professora na FCT-UNL

Se quiser colocar alguma questão, envie-me um email para info@industriaeambiente.pt

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