“Ir a ares"

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“(…) Meu santo minha santa

Filomena tirada dos altares

quando a alma dos outros é pequena

melhor é ir a ares. (…)”

José Carlos Ary dos Santos

Camilo Castelo Branco, um dos mais distintos escritores nacionais, usou o tempo de prisão por adultério para escrever Memórias do Cárcere e nelas se interrogou: “Mas – disse Maria Pacheco – se o senhor doutor fizesse ver a conveniência desta senhora ir a ares, talvez que ela se restabelecesse”. A crença que a personagem deposita nos benefícios do ar puro, infelizmente, não terá sido acompanhada pelo próprio Camilo em 1890 quando, desiludido com a prescrição do oftalmologista Magalhães Machado (ar puro e termas - ar e água para resolver a atrofia do nervo óptico resultado de neurossífilis, para que não havia cura) se suicida.

Quase dois séculos depois, o “ar puro” como tema de debate mantém-se, agora numa versão mais dramática – a da poluição do ar. E existe uma relação evidente e demonstrada entre a diminuição da qualidade do ar e o aumento dos compostos associados aos fenómenos de poluição atmosférica, responsáveis pelo aumento dos gases com efeito de estufa e, claro, com as alterações climáticas.

Em 2019, o Dia Mundial do Ambiente teve como tema específico a poluição do ar que se manifestou dramaticamente ao longo do ano em países como a China ou a Austrália, onde, nalgumas cidades, a população, neste aspecto, vive em condições infra-humanas, atentatórias da saúde pública.

As ambições do crescimento económico, sem políticas de contenção e neutralização do consumo de combustíveis fósseis, criaram situações insustentáveis para a sobrevivência das espécies, verdadeiras calamidades.

O objectivo de 1,5°C como valor máximo de aumento do aquecimento global só poderá ser atingido se os consumos de combustíveis fósseis forem drasticamente reduzidos ou mesmo banidos, até 2050. Poder-se-ia recorrer a energias renováveis, mas veja-se o caso chinês que, desde 1960 tem vindo a reduzir o seu potencial de produção de energia solar fotovoltaica, devido ao efeito da poluição do ar (e da quantidade de partículas existentes) que obstaculiza a capacidade de captação da radiação solar.

Assinale-se ainda que os efeitos da poluição do ar na saúde pública são muito graves - um terço das mortes por enfarte, cancro do pulmão e doenças cardíacas são devidas à poluição do ar, que não é visível a olho nu mas que nem por isso deixa de existir. A maioria das cidades no mundo, e 93% dos menores de 18 anos, convivem com valores superiores de poluição do ar do que os máximos recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

A exposição à poluição do ar está ligada a uma série de efeitos adversos na saúde: mortalidade infantil; asma; distúrbios do desenvolvimento neurológico e doenças oncológicas infantis. Segundo a OMS, cerca de 14% das crianças entre cinco e 18 anos tem asma relacionada com poluição do ar e, anualmente 543 mil crianças, menores de cinco anos, morrem de doenças respiratórias relacionadas com este tipo de poluição. A lista de efeitos comprovados entre poluição do ar e saúde das populações é muito mais vasta.

Camilo, com sentido profético que se entende ser próprio de quem escreve, poderia ter previsto a união de esforços entre profissionais de saúde, cientistas e governantes para a recomendação de “ar limpo” para as crianças, para as populações, para os ecossistemas, para a sobrevivência e para uma verdadeira sustentabilidade.

Neste número da revista dedicamo-nos à Qualidade do Ar e, para isso, contámos com o imprescindível contributo da professora Myriam Lopes, aqui co-editora. Muito obrigada pela sua generosa entrega, tal como a dos restantes participantes que me compreendem que saliente o contributo do Professor Carlos Borrego, uma referência nacional em termos de Ambiente e, de forma muito especial, em matérias da Qualidade do Ar. A diversidade de colaborações permitiu-nos enriquecer o pensamento sobre o tema, que cobre uma vasta área de tópicos. Bons ventos para todos.

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Leonor Amaral

Diretora da Indústria e Ambiente / Professora na FCT-UNL

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