Entrevista a Paulo Preto dos Santos
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- 28 setembro 2026, segunda-feira
- Energia

Entrevista por João Guilherme Oliveira | Fotografia por Christina Genet
Para abordar o atual panorama nacional e europeu, assim como as perspetivas para o futuro dos gases renováveis e do mercado elétrico, entrevistámos Paulo Preto dos Santos. Com uma ampla trajetória no setor energético, o seu percurso profissional e associativo cruza de forma expressiva o ecossistema da engenharia, o debate sobre as políticas públicas industriais e a liderança executiva na concretização de projetos energéticos inovadores de grande escala.
A bioenergia voltou a assumir um papel de destaque no debate sobre a transição energética europeia, sobretudo através do biometano, dos biocombustíveis avançados e da valorização energética da biomassa residual. Que papel atribui a estas soluções no atual mix energético e que potencial identifica para Portugal?
A bioenergia nunca deixou verdadeiramente de ser relevante. Na realidade, muitas vezes esquecemo-nos de que a biomassa continua a ser, de longe, a principal fonte de energia renovável no consumo final de energia em Portugal, superando largamente qualquer das outras renováveis quando analisamos o conjunto da energia final consumida e não apenas a produção de eletricidade. Tal como também o é na Suécia, na Finlândia, na Dinamarca ou na Áustria, só para mencionar os países europeus mais avançados nas renováveis e na transição energética. Isto demonstra que a bioenergia já é hoje um pilar do nosso sistema energético e não apenas uma aposta para o futuro. Além disso, a bioenergia oferece características que outras fontes renováveis não conseguem assegurar por si só: permite produzir calor de processo, é armazenável, é despachável, pode substituir diretamente combustíveis fósseis em muitos setores industriais e ao mesmo conseguir descarbonizar pagando menos que a alternativa elétrica. O biometano é um excelente exemplo dessa complementaridade. Pode utilizar a infraestrutura existente de gás natural, valorizar resíduos agropecuários, agroindustriais e urbanos e contribuir simultaneamente para reduzir emissões de metano e reforçar a segurança energética. Portugal reúne condições favoráveis para desenvolver este setor. Dispomos de uma importante atividade agrícola, pecuária e florestal, de uma indústria agroalimentar relevante e de uma disponibilidade significativa de resíduos orgânicos ainda insuficientemente valorizados. Transformar esses resíduos em energia significa descarbonizar criando valor económico, promovendo a economia circular, reduzindo importações de energia e aumentando a resiliência do sistema energético nacional. Por isso, considero que a bioenergia deve ser encarada não como uma alternativa menor à eletrificação, mas como um dos pilares de um sistema energético diversificado, resiliente e tecnologicamente neutro.
A União Europeia tem vindo a promover fortemente a eletrificação da economia como principal vetor de descarbonização, procurando simultaneamente reduzir a dependência do gás natural importado. Considera que esta estratégia é tecnicamente e economicamente adequada para todos os setores industriais ou existem processos onde os combustíveis renováveis continuarão a desempenhar um papel indispensável?
A eletrificação será, sem dúvida, um dos principais instrumentos da descarbonização. Em muitos setores faz todo o sentido e deverá continuar a crescer à medida que aumenta a disponibilidade de eletricidade renovável, mas… se tiver preços competitivos. É um clamoroso erro assumir que existe uma solução única para toda a indústria. Em Portugal temos já inúmeros exemplos de empresas que descarbonizaram os seus processos não através da eletrificação, mas através da bioenergia, porque essa é simultaneamente a solução técnica mais adequada e a mais competitiva do ponto de vista económico. É o caso de várias indústrias têxteis, como a
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