Da biomassa à bioeconomia territorial - eletricidade, calor e carbono renovável

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João Bernardo, Presidente do Conselho de Administração do Centro da Biomassa para a Energia (CBE)
 

A biomassa continua a ser, no debate energético, uma das fontes renováveis mais discutidas e, por vezes, mais mal compreendidas. A sua relevância não deve ser avaliada apenas pela quantidade de eletricidade que pode produzir, nem pela substituição direta de combustíveis fósseis em caldeiras ou centrais térmicas. A questão decisiva é outra: como transformar resíduos biogénicos frequentemente dispersos, heterogéneos e muitas vezes problemáticos em soluções locais de energia, calor, materiais, carbono estável e gestão ativa do território.

Da biomassa indiferenciada à valorização em cascata

É neste ponto que a bioenergia deve evoluir. As utilizações convencionais da biomassa, como a combustão direta para produção elétrica ou térmica, só fazem pleno sentido quando inseridas numa lógica de proximidade, de eficiência e de valorização em cascata. A biomassa não deve ser vista como um combustível indiferenciado, mas como uma matéria-prima renovável cuja composição, origem, qualidade, teor de humidade, granulometria, contaminações e custo logístico determinam o destino mais adequado.

É por essa razão que a primeira mudança necessária terá de ocorrer nas operações de mobilização, preparação e logística da biomassa, a montante da central. Isto é muito importante, porque toda a cadeia, a começar pelos clientes finais, vai exigir uma evolução significativa na forma como recolhemos, separamos, tratamos e certificamos a biomassa.

Em muitos territórios florestais e agroflorestais, o recurso existe, mas chega ao mercado de forma irregular, pouco qualificada e com custos de mobilização elevados. Parte significativa dos sobrantes florestais, resíduos agrícolas, material lenhoso de gestão de combustível, resíduos verdes urbanos, cascas, podas, estilha e outras frações biogénicas perdem valor por falta de uma infraestrutura intermédia capaz de organizar a oferta.

Daí a importância de centros locais ou regionais de recolha, triagem e pré-tratamento de biomassa. Estes centros não devem ser entendidos como simples parques de armazenamento. Devem funcionar como plataformas de bioeconomia territorial: receção de materiais, separação por origem e qualidade, secagem natural ou assistida, destroçamento, crivagem, remoção de inertes, controlo de humidade, preparação de lotes, rastreabilidade, amostragem e encaminhamento para diferentes destinos. Só assim se evita que tudo acabe no mesmo destino energético, independentemente do seu valor potencial.

A lógica de cascata é essencial. Uma fração limpa e estruturalmente adequada pode ter uso material ou químico. Uma fração fina, húmida e rica em matéria orgânica pode seguir para compostagem ou para melhoramento de solos. Determinadas frações podem ser convertidas em biochar, com interesse agronómico, ambiental ou industrial. Outras podem alimentar processos de pirólise, gaseificação, produção de moléculas de base biogénica, biocombustíveis avançados ou materiais carbonosos. A combustão eficiente deve ficar reservada para as frações em que a valorização energética seja a opção técnica, económica e ambientalmente mais robusta.

Centrais de biomassa: mais do que produzir eletricidade

Isto não diminui a importância das centrais de biomassa. Pelo contrário, obriga-as a evoluir. A central de futuro não deve ser apenas uma unidade de produção elétrica. Deve funcionar como uma plataforma energética e industrial, integrada num sistema territorial de valorização de recursos. A eletricidade é apenas um dos produtos possíveis. O calor, frequentemente subaproveitado, deve passar a ser considerado um vetor estratégico. O mesmo se aplica às cinzas, aos condensados, ao dióxido de carbono biogénico, aos serviços de flexibilidade e à capacidade de estabilizar redes locais com produção renovável despachável.

A produção simultânea de eletricidade e calor é uma das vias mais evidentes para aumentar a

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