Bioenergia: transformar resíduos em energia para descarbonizar a Rede Pública de Gás
- 21 setembro 2026, segunda-feira
- Energia

D.R.
A crise energética europeia demonstrou a vulnerabilidade associada à dependência de combustíveis fósseis importados e reforçou a necessidade de diversificar as fontes de energia. Neste contexto, a bioenergia assume uma importância crescente não apenas enquanto solução ambiental, mas também como instrumento de resiliência energética.
A capacidade de produzir energia renovável a partir de resíduos permite reduzir dependências externas, reforçar a segurança de abastecimento e criar valor económico a partir de recursos disponíveis no território nacional e europeu, atuando simultaneamente sobre diferentes desafios ambientais.
Os resíduos como recurso energético
A evolução tecnológica e o desenvolvimento dos conceitos de economia circular e regenerativa permitem hoje encarar os resíduos como uma fonte de matérias-primas secundárias e de energia renovável.
Quando adequadamente recolhidos e tratados, estes fluxos podem ser convertidos em biogás através de processos biológicos, nomeadamente a digestão anaeróbia, processo que ocorre na ausência de oxigénio, permitindo que microrganismos decomponham a matéria orgânica e produzam uma mistura gasosa rica em metano. Após purificação e remoção de impurezas, o biogás pode ser convertido em biometano com características semelhantes às do gás natural.
As empresas concessionárias da EGF (Mota-Engil), ao longo das últimas duas décadas, têm atuado na valorização orgânica da fração biodegradável dos resíduos urbanos, através de digestão anaeróbia, mas também de compostagem. A recolha seletiva de biorresíduos, em crescimento em Portugal, representa uma oportunidade para aumentar a disponibilidade de matéria-prima separada destinada à digestão anaeróbia e à produção de gases renováveis.
Embora os resíduos urbanos sejam frequentemente mais visíveis no debate público, os resíduos não urbanos representam uma parcela significativa do potencial nacional de produção de bioenergia.
O setor agropecuário gera grandes quantidades de efluentes pecuários, estrumes e outros resíduos orgânicos com elevado potencial metanogénico. A digestão anaeróbia destes materiais reduz emissões, melhora a gestão dos nutrientes e produz energia renovável.
Também a indústria agroalimentar disponibiliza importantes fluxos de resíduos valorizáveis. Subprodutos das indústrias do vinho, azeite, lacticínios, carne, frutas e hortícolas podem alimentar instalações de produção de biogás, transformando um custo de gestão de resíduos numa fonte adicional de receita. A combinação de diferentes substratos permitirá otimizar a produção de biogás e aumentar a sustentabilidade económica dos projetos.
A valorização destes recursos contribui para a diversificação da atividade económica, para a criação de emprego local e para o reforço da resiliência energética e ambiental dos territórios.
Modelos colaborativos e cadeias de valor circulares
A crescente procura por soluções de descarbonização está a impulsionar o desenvolvimento de modelos colaborativos, que assentam na criação de plataformas de cooperação entre produtores de resíduos, empresas de gestão e tratamento de resíduos, empresas de tecnologia, operadores energéticos, indústria transformadora e entidades públicas. (...)
Autor Inês Baeta Neves
Inovação e Desenvolvimento / Sustentabilidade – EGF
Leia o artigo completo publicado na Indústria e Ambiente nº 159, julho/agosto 2026, dedicada ao tema "Bioenergia, do plano de ação à descarbonização real"
Outros artigos que lhe podem interessar