Usar macroalgas para remover micropoluentes da água

D.R.

Um estudo da Universidade de Aveiro (UA) demonstra que macroalgas marinhas podem constituir uma solução eficaz, sustentável e de baixo custo para a remoção de corantes sintéticos da água

Os corantes sintéticos, usados nas indústrias têxtil, médica e química, são de difícil tratamento pelos sistemas convencionais. De acordo com o investigador Bruno Henriques, os corantes sintéticos são compostos orgânicos complexos e frequentemente persistentes que, quando presentes na água, reduzem a penetração da luz solar, comprometendo a fotossíntese e afetando diretamente o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos. Acresce ainda que alguns corantes apresentam toxicidade ou ecotoxicidade, podendo acumular-se ao longo da cadeia alimentar, o que levanta preocupações indiretas para a saúde humana.

Neste estudo assinado por Sofia Grangeia, Thiago Silva, Eduarda Pereira e Bruno Henriques, do Departamento de Química e do LAQV-REQUIMTE – Laboratório Associado para a Química Verde da UA, os investigadores avaliaram a capacidade de três géneros de macroalgas — Fucus, Gracilaria e Ulva — para remover o azul de metileno, um corante sintético amplamente utilizado como composto modelo, em diferentes tipos de água e níveis de salinidade. Foram testadas algas vivas e algas secas, tendo ambas apresentado elevadas taxas de remoção, embora com desempenhos distintos consoante as condições experimentais.

Para compreender o efeito de variáveis como a quantidade de algas utilizada, a concentração do corante e a salinidade da água, foi aplicada uma metodologia estatística que permitiu otimizar o processo. Os resultados mostram que a alga viva Ulva consegue remover até 92 por cento do corante em seis horas, atingindo valores ainda mais elevados em água doce engarrafada. Já a biomassa seca de Fucus alcança cerca de 96 por cento de remoção em apenas meia hora, revelando um desempenho particularmente eficaz em ambientes mais salinos.

A análise identificou a quantidade de biomassa e a salinidade como os principais fatores que influenciam a eficiência do processo, permitindo adaptar a escolha da espécie e do tipo de biomassa às características específicas da água a tratar. Embora a biomassa seca atue mais rapidamente, as algas vivas apresentam vantagens operacionais relevantes, como a facilidade de separação após o tratamento e a capacidade de absorção de dióxido de carbono, contribuindo para a redução das emissões.

Em comunicado da universidade, Bruno Henriques explica que a aplicação desta tecnologia à escala industrial deverá privilegiar o cultivo controlado de macroalgas, em detrimento da recolha direta no meio natural, evitando desequilíbrios ecológicos. A aquacultura de macroalgas é já uma prática estabelecida em Portugal e noutros países, permitindo uma produção sustentável e previsível de biomassa. No contexto do tratamento de águas residuais, estas algas poderão também ser cultivadas em sistemas controlados ou integradas em infraestruturas existentes, recorrendo tanto a biomassa viva como a biomassa residual de outras atividades industriais.

Newsletter Indústria e Ambiente

Receba quinzenalmente, de forma gratuita, todas as novidades e eventos sobre Engenharia e Gestão do Ambiente.


Ao subscrever a newsletter noticiosa, está também a aceitar receber um máximo de 6 newsletters publicitárias por ano. Esta é a forma de financiarmos este serviço.