Descarbonização, eletrificação, resiliência

FOTO ANT ROZETSKY/ UNSPLASH

Descarbonização, eletrificação, resiliência: este é, inevitavelmente, o mote da primeira coluna “Energia” de 2026

Em 30 anos, fomos sucessivamente avisados:

  • Do consumo excessivo de recursos e da degradação ambiental que dele resulta, com apelo ao equilíbrio entre os pilares Ambiental, Económico e Social. Foi o apontar do Desenvolvimento Sustentável, caminho abrangente e sempre atual.
  • Da degradação climática, com objetivo de limitação do aumento a 2C da temperatura das águas oceânicas. A responsabilidade deste aumento foi atribuída às emissões de dióxido de carbono resultante das atividades económicas humanas, as quais se impunha limitar. Foi o Protocolo de Quioto, subscrito pela maioria dos países, originando compromissos que, sobretudo nos países europeus, foram acompanhados de fixação por objetivos nacionais vinculativos.
  • Mais recentemente, da insuficiência das medidas universalmente acordadas com a correspondente necessidade de agravamento de objetivos, a limitação ao aumento da temperatura oceânica em 1,5oC.
  • Da necessidade da redução, não só das emissões de gases com efeito de estufa, mas, paralelamente, do imperativo de redução da dependência da Europa em combustíveis fósseis que não possui. Foram as iniciativas europeias de eletrificação, acompanhadas de legislação e de planos progressivamente restritivos e penalizadores do recurso a esses combustíveis, através, quer de limitações legais, quer de mecanismos de mercado de que é exemplo o Comércio Europeu de Licenças de Emissão (CELE).
  • Da consciência de que não havia soluções tecnológicas para a eletrificação de muitos processos industriais que requerem temperaturas elevadas – as indústrias hard-to-abate. Surgiu, então, a estratégia do hidrogénio, bem expressa, em Portugal, nos objetivos da versão final do PNEC 2030, com o seu programa ambicioso de duplicação da potência elétrica instalada no País. O objetivo de eletrificação e de produção de vetores energéticos substitutos dos combustíveis tradicionais a partir de eletricidade renovável ficou bem patente neste plano nacional.
  • Da existência da capacidade nacional relevante em bioenergia já reconhecida pela via do potencial da biomassa florestal, mas agora potenciada na sua valorização pelo recurso à tecnologia da bio-digestão produzindo, biometano, combustível renovável. Foi o Plano de Ação para o Biometano 2024/2040.

Mas o esforço de redução da dependência energética, em 2005 superior a 85 % e, agora, inferior a 70 %, não está isento de obstáculos:

  • A Estratégia do Hidrogénio tarda em concretizar-se devido à persistência do seu elevado custo de produção. Esta falha de competitividade está a retardar o aparecimento de combustíveis de baixo carbono para os transportes e a baixar as expectativas no que respeita à descarbonização dos transportes aéreo e marítimo.
  • O Plano de Ação para o Biometano, publicado em março de 2024, apresenta avanços insuficientes. Estão em causa benefícios ambientais evidentes e a eliminação de emissões de metano na pecuária e no tratamento de resíduos urbanos. A tecnologia requerida é madura, existe na Europa, e os custos envolvidos são, hoje, claramente inferiores aos da produção de hidrogénio.

O potencial é significativo – descarbonização do gás natural em cerca de 20 % - sendo necessário apenas um empenhamento político e administrativo comparável com o que sucede com as políticas de eletrificação, até porque manifestações de interesse por parte de investidores não faltam.

No entanto, algum caminho foi percorrido, mas este progresso, mesmo difícil, foi duramente confrontado com o imprevisível “apagão” em 2025 e agora com o efeito da tempestade Kristin, eventos que puseram em causa a disponibilidade da eletricidade garantida tantos anos e tão bem pelos responsáveis do Sistema Elétrico Nacional.

De repente, foi assim adicionada a preocupação na segurança e na resiliência do setor elétrico.

Muito pode ser feito no sentido deste objetivo; vale a pena, embora custe investimento.

Pode dizer-se que é sempre necessária a adaptação das redes elétricas às novas formas de produção e às exigências técnicas do consumo, o que requer formas de gestão e de controlo que só avanços na sua digitalização podem resolver. Mas fenómenos externos, desde ocorrências meteorológicas extremas a ataques cibernéticos ou mesmo físicos, só se mitigam nas suas consequências com a disponibilidade de alternativas.

A eletrificação é o caminho preferencial, mas não pode ser o único

A comprová-lo está o consumo de gás natural na produção de eletricidade, necessário à estabilidade da rede. Esta razão, por si só, justificaria uma atenção extrema à boa saúde do Sistema Nacional de Gás (...)

Leia o artigo completo na Indústria e Ambiente nº 157, março/abril 2026, dedicada ao tema "Segurança no setor da água"

Jaime Braga

Engenheiro

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