Cidades e alterações climáticas

FOTO TOBIAS CORNILLE/ UNSPLASH
“(…) mas arranjar casa mostrava-se então difícil numa capital demasiado pequena para os seus cinco milhões de habitantes; assim, à força de alargar as praças, abrir avenidas e multiplicar os bairros, ameaçava faltar terreno para a construção de habitações particulares. E, por isso, bem se justificava esta frase própria do tempo: em Paris já não há casas, só existem ruas!”
Jules Verne, Paris no Século XX,1863
Para Jules Verne, Paris poderia ser em 1860 uma cidade espectacular, com cinco milhões de habitantes, até com um Ministro dos Espaços Urbanos, mas tinha muitos problemas. E a falta de habitação, que se destacava, estava também acompanhada pelo infernal cheiro a amoníaco proveniente dos lodos do Sena. No texto em cima mencionado, Verne faz uma antevisão de Paris em que a cidade teria 10 mil chaminés de fábricas, tornando-se a sua atmosfera parecida com a do Reino Unido.
Estas “visões premonitórias” de Jules Verne são curiosas porquanto anteciparam alguns dos problemas que sentimos hoje nas grandes urbes, estimando-se que, até 2050, pelo menos 64% da população mundial, ou mais, venha a viver em cidades.
Os efeitos das alterações climáticas fazem-se sentir nas cidades de forma cada vez mais intensa — e já não basta reconhecer o problema: é preciso agir com medidas concretas, eficazes e urgentes que os contrariem. Entre os fenómenos mais “visíveis” destacam-se as ilhas de calor urbano e a subida do nível do mar, dois desafios distintos, mas que exigem respostas a par e igualmente estruturais.
As ilhas de calor são resultado directo da forma como construímos as cidades. Superfícies asfaltadas, edifícios densos e escassez de vegetação fazem com que as temperaturas urbanas sejam significativamente mais elevadas do que nas zonas rurais. Para combater este fenómeno, várias cidades têm apostado em soluções relativamente simples, mas altamente eficazes: a plantação massiva de árvores é uma das principais já que cria sombra, reduz a temperatura ambiente e melhora a qualidade do ar. A implementação de telhados e fachadas verdes também contribui para o arrefecimento natural dos edifícios, além de aumentar a eficiência energética e melhorar a paisagem. Destaque-se ainda a utilização de materiais reflectivos em pavimentos e coberturas — os chamados “cool roofs” e “cool pavements” — que reduzem a absorção de calor. A criação de corredores verdes e a reintrodução de água no espaço urbano, através de fontes, lagos, renaturalização do espaço urbano e sistemas de drenagem sustentável, como os designados por “sponge cities”, ajudam igualmente a baixar a temperatura e a tornar o ambiente mais habitável.
A subida do nível do mar põe em risco milhões de pessoas que vivem em cidades costeiras e em pequenos países insulares. Nas cidades, as estratégias dividem-se entre proteção, adaptação e, em alguns casos, recuo planeado. Infraestruturas como diques, barreiras marítimas e sistemas de contenção são fundamentais para proteger áreas urbanas densamente povoadas. No entanto, soluções baseadas na natureza têm ganho destaque: a recuperação de zonas húmidas, dunas e mangais funcionam como uma defesa natural contra tempestades e inundações, ao mesmo tempo que preserva ecossistemas.
É imperativo que o planeamento urbano assuma todos estes desafios para evitar situações extremas como as que são já uma realidade e que correspondem a relocalizar cidades inteiras — uma decisão complexa, mas por vezes inevitável.
As medidas aqui elencadas, ou outras, só serão eficazes se integradas numa visão mais ampla de cidade sustentável. Mobilidade limpa, eficiência energética e gestão inteligente de recursos continuam a ser pilares fundamentais enquanto se envolvem os cidadãos neste combate e se promove a literacia climática.
Agradeço ao Professor André Nouri o seu precioso contributo para este número da revista, e o cuidado evidenciado enquanto seu co-editor: disponibilizou-se a partilhar conhecimento com os leitores, sugeriu nomes de especialistas de excelência nestas matérias, autores que prontamente aceitaram o desafio e a quem também agradeço os seus sábios contributos.
Sempre com esperança, como José Rodrigues Miguéis quando escreveu: “A cidade sorri nervosamente, e eu respondo-lhe com um sorriso de amor…” despeço-me dos leitores, apesar de tudo sempre desvanecida com a beleza das nossas cidades e empenhada em ajudar a salvá-las para as futuras gerações.
Diretora da Indústria e Ambiente / Professora na FCT-UNL
Se quiser colocar alguma questão, envie-me um email para info@industriaeambiente.pt
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