Planeamento territorial face às alterações climáticas: evidências e implicações na Área Metropolitana do Porto

FOTO RENAN / UNSPLASH

Contextualização

A incorporação da variável climática no planeamento do território tem vindo a assumir um carácter progressivamente estruturante, sobretudo em áreas metropolitanas, onde a densificação urbana, a impermeabilização e a transformação da cobertura do solo amplificam riscos associados ao aquecimento e ao desconforto térmico (Lopes et al., 2025b).

Em contexto urbano, o fenómeno da Ilha de Calor Urbano (ICU) resulta, em grande medida, de diferenças nos balanços de energia e nas trocas turbulentas de calor latente e sensível entre superfícies edificadas e superfícies vegetadas, bem como de alterações das propriedades físicas dos materiais (capacidade térmica, condutividade, albedo e emissividade), que condicionam a absorção, o armazenamento e a libertação de energia (Owen et al., 1998; Weng et al., 2004), e tendem a reduzir a evapotranspiração, reforçando o sobreaquecimento (Deng & Wu, 2013; Lopes et al., 2022). Por conseguinte, mesmo em territórios com influência marítima e um enquadramento climático frequentemente descrito como ameno, a organização morfológica, a rugosidade urbana e a presença (ou ausência) de infraestrutura verde podem criar mosaicos térmicos muito contrastados, com efeitos relevantes na exposição da população e na funcionalidade de espaços outdoor (Oke, 1995; Oke et al., 2017; Pinto et al., 2024; Lopes et al., 2025a).

Do ponto de vista metodológico, importa distinguir o uso da variável Temperatura do Ar (Tar), frequentemente associada à ICU “clássica” observada em redes meteorológicas, e a Temperatura de Superfície (Tsup, vulgarmente conhecida como LST – Land Surface Temperature), derivada de deteção remota, que traduz o estado térmico radiativo das superfícies e permite captar padrões finos de aquecimento diferencial por usos do solo, materiais e presença de vegetação (Lopes et al., 2022). Embora Tsup e Tar não sejam equivalentes, a sua leitura combinada é particularmente útil para informar medidas urbanísticas, dado que a Tsup é sensível a mudanças na cobertura e ocupação do solo e, por isso, permite identificar áreas prioritárias para intervenções de mitigação (e.g., aumento de sombreamento, materiais de maior refletância, redução de impermeabilização).

Neste sentido, as imagens MODIS, apesar da resolução espacial moderada, são relevantes para a compreensão de padrões espaço-temporais (incluindo contrastes diurnos e noturnos), enquanto imagens de maior resolução (e.g., LANDSAT, SENTINEM) tendem a ser mais adequadas para diagnósticos de criticidade à escala intraurbana. Em ambos os casos, o valor analítico é maximizado quando a interpretação térmica é enquadrada por princípios do balanço energético e por variáveis biofísicas que explicam o aquecimento/arrefecimento evaporativo, como índices de vegetação e de edificado, contribuindo para uma leitura aplicada ao ordenamento e à saúde pública.

A tradução destes padrões para a experiência humana exige, porém, uma passagem da lógica “física” (Tar/Tsup) para uma lógica “bioclimática”, baseada em índices integradores. O Physiological Equivalent Temperature (PET), ao articular temperatura do ar, humidade relativa, vento e radiação com pressupostos de metabolismo e características do indivíduo, constitui um indicador operativo para aproximar a análise climática do desempenho, bem-estar e risco em espaço exterior, permitindo comparar estações do ano e antecipar janelas temporais mais prováveis de conforto/desconforto. Assim, a avaliação do ambiente térmico urbano deve ser entendida como um continuum entre diagnóstico (identificação de padrões e hotspots) e decisão (priorização de medidas e avaliação do seu potencial), reforçando a necessidade de instrumentos de planeamento incorporarem de forma mais substantiva o clima urbano e a adaptação.

O estudo de caso da Área Metropolitana do Porto

Optou-se pela utilização da Área Metropolitana do Porto (AMP) como área-objeto de estudo nesta reflexão. Procura-se responder às seguintes questões de partida: (1) quais são as condições atuais encontradas na AMP em termos de condições térmicas? e (2) o que se perspetiva para o futuro em contexto de alterações climáticas?

Após a conjugação destas duas premissas, parece-nos claro que para o território-objeto de estudo facilmente se pode generalizar o carácter aprazível de um subtipo climático de fachada atlântica. Todavia, estas caraterísticas são registadas apenas por valores objetivos dos registos climatológicos oficiais, tal como advoga Monteiro (2020). Para este efeito, é essencial considerar-se, no nosso entender, duas perspetivas: (i) a da localização geográfica em sentido lato – diferentes áreas espaciais, mesmo que próximas, apresentam condições térmicas distintas e esta razão é tanto maior quanto maior é o afastamento entre as mesmas (seja, por exemplo, pelo efeito de continentalidade/proximidade atlântica, da altitude ou da densificação urbana sob a forma de Ilha de Calor Urbano – ICU); (ii) e a dos efeitos decorrentes da temperatura do ar sobre os padrões de conforto/desconforto térmico, a um nível mais estrito. (...)

Autores: Hélder Silva Lopes, Professor Auxiliar
Departamento de Geografia, Universidade do Minho
Lab2PT – Laboratório de Paisagens, Património e Território
Tiago Azevedo
Laboratório da Paisagem

Leia o artigo completo na Indústria e Ambiente nº 158, maio/ junho 2026, dedicada ao tema "Adaptação das cidades às alterações climáticas"

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