Ciberameaças ao abastecimento de água e saneamento
- 11 maio 2026, segunda-feira
- Água

© S.SHIMAZAKI / PEXELS
Enquadramento
A necessidade imperiosa de uma gestão eficiente, resiliente e sustentável dos recursos hídricos, decorrente da urbanização acelerada, dos efeitos das mudanças climáticas e da obsolescência de equipamentos e infraestruturas, resulta numa crescente dependência dos sistemas de abastecimento de água e de saneamento (A&S) relativamente às Tecnologias de Informação (TI) e de Operação (TO).
Esta gestão dos recursos hídricos implica a integração de diferentes tecnologias (sensores de rede, conectividade, sistemas SCADA, SIG, Big Data, Inteligência Artificial), criando uma visão completa e atualizada dos sistemas de A&S e uma gestão mais rápida, informada e proativa.
Porém, também origina uma superfície de ataque cada vez mais alargada, crescentemente visada por variadas tipologias de agentes de ciberameaças, com distintas capacidades e motivações, objetivos e metodologias de execução próprios e com o potencial de causarem perturbações significativas nos serviços de A&S e a quem estes servem.
Neste artigo é caracterizado o espectro das ciberameaças ao setor de A&S que se enquadram nas atribuições legais do Serviço de Informações de Segurança (SIS), sendo, ainda, mencionados indícios de atividade hostil e nomeadas melhores práticas que visam prevenir, proteger e reduzir os impactos decorrentes da atuação daquelas ciberameaças.
Importa, porém, começar por perceber o papel do SIS no contexto geral da cibersegurança em Portugal e na prevenção das ciberameaças em particular.
O SIS e a cibersegurança
O SIS tem a missão legal e exclusiva de produção de informações visando a prevenção do terrorismo, da sabotagem, da espionagem, da criminalidade organizada e de outros atos suscetíveis de porem em causa o Estado de Direito constitucionalmente estabelecido. Procuramos antecipar ameaças, no plano físico e no plano digital, que ponham em causa a nossa segurança coletiva e municiar os órgãos e entidades competentes do Estado, bem como outros destinatários pertinentes, com as informações adequadas de apoio à tomada de decisão para que estes possam tomar as melhores decisões, não apenas para melhorarem a sua segurança, mas, também, no seu todo, para contribuírem para um país mais resiliente e para uma defesa coletiva.
No âmbito da prevenção das ciberameaças à segurança nacional, a atuação do SIS é seletiva. O foco está no combate diário a ciberameaças com capacidade comprovada para causarem disrupção na nossa sociedade democrática e do nosso Estado de Direito, visando instituições públicas e privadas, incluindo infraestruturas críticas e prestadores de serviços essenciais.
Este combate é feito através da prevenção e da antecipação da materialização de atos hostis contra alvos nacionais e aliados, públicos e privados, suportadas pelo acompanhamento permanente dos agentes de ciberameaça na sua proximidade tática e pela rigorosa avaliação das suas capacidades operacionais, motivações e intenções. Visa-se, ainda, uma identificação precisa da identidade das pessoas e das organizações que se escondem por detrás do anonimato digital, com vista à sua responsabilização futura.
Esta missão preventiva foi recentemente reforçada pelo DL nº 125/2025, que transpôs a Diretiva NIS2 para o ordenamento jurídico interno. Este diploma qualifica o SIS como uma entidade central no quadro institucional da segurança do ciberespaço, garantindo a sua participação em órgãos como o Conselho de Segurança do Ciberespaço e a Comissão de Avaliação de Segurança do Ciberespaço, o grupo G5 e a célula de crise de cibersegurança, reconhecendo ainda as suas competências exclusivas no contexto de intelligence face a ciberameaças prioritárias à segurança interna.
Pela sua importância e sem prejuízo da existência de outros canais de cooperação, a melhoria da segurança do A&S, qualquer que seja a dimensão das entidades gestoras, passa também pela criação ou aprofundamento da cooperação com o SIS, visando a prevenção de ameaças à segurança nacional, nos planos físico e digital, seguindo a lógica promovida pelo serviço para a dinamização de canais de diálogo e de outreach setoriais e peer to peer, para a mais célere e eficiente disseminação de elementos defensivos. (...)
Autor Adélio Neiva da Cruz,
Diretor do SIS
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