Pensar a longa duração nos serviços da água: a importância da construção de cenários

A forma como se olha para o futuro, ou mais correctamente, como cada um de nós se interessa sobre como poderá ser o futuro, é muito distinta. Por ex., Fernando Pessoa, através do seu heterónimo Alberto Caeiro, quando no poema “Quando Vier a Primavera” diz “O que for, quando for, é que será o que é” parece manifestar indiferença quanto ao porvir. Pelo contrário, o Presidente John F. Kennedy afirma “ A mudança é a lei da vida. Os que olham só para o passado ou o presente certamente que perderão o futuro”. Será que as diferentes posturas relevam do facto de um ser um poeta e outro um político? Ou de um ter nascido na “terra do fado” e o outro na “terra das oportunidades”? Talvez, mas a verdade é que enquanto o primeiro encara passivamente o que virá, o segundo pretende ter uma palavra a dizer sobre o mesmo, ter uma posição proactiva.

Construção de cenários

Se pensarmos numa organização, seja ela de que sector de actividade for, se conseguir antecipar, planear o futuro, tal poder-se-á revelar muito relevante e constituir uma enorme vantagem competitiva. Mas, quando se pensa no futuro, coloca-se uma variedade de questões e problemas.

Desde logo coloca-se a questão da duração, ou por outras palavras sobre qual o horizonte temporal no qual que iremos  reflectir: um ano, anos, décadas? A definição de uma perspectiva temporal, mais ou menos precisa, é indispensável. Exercícios de curto, longo ou muito longo prazo são muito diferentes quer nos conteúdos, quer nos métodos e, consequentemente, os graus de precisão detalhe e dificuldade são bem distintos. Por ex., se pensarmos em anos a quantificação é imprescindível, permanecendo uma certa ligação ao ponto de partida. Ao alargar o horizonte para décadas torna-se importante tentar abranger acontecimentos que gerem eventos disruptivos, dada a maior possibilidade de estes acontecerem, pensar “fora da caixa” e tentar uma abstracção maior relativamente ao ponto de partida. Aqui o qualitativo prevalece.

O futuro é, por definição, desconhecido. Por muito bons métodos e instrumentos que possuamos para o prever, o futuro será sempre uma incógnita, não temos nenhum tipo de garantia de que ele ocorrerá como o prevemos. Tomar decisões de gestão a partir de previsões, nomeadamente na longa duração é, portanto, um exercício pouco prudente. Mas se não temos possibilidade de conhecer o futuro, temos a de conceber futuros e poder, a partir daí, tomar decisões robustas. Devemos, por isso, não construir um futuro mais ou menos previsível, mas de conceber distintos futuros. Temos de construir cenários, isto é, descrever futuros possíveis e os acontecimentos que os explicam. Neste tipo de exercícios, sobre o modo como o futuro se poderá desenvolver, estamos no campo da prospectiva e não da previsão.

A construção de cenários é, assim, um instrumento importante para todo o tipo de organizações. Os cenários oferecem uma oportunidade para explorar e comparar futuros alternativos, permitem uma melhor compreensão dos diferentes caminhos que nos conduzem em direcção ao futuro. Os cenários são uma importante ferramenta de comunicação entre os vários intervenientes na gestão das empresas (administração, planeamento, operações, etc.) no sentido duma melhor compreensão dos desafios, oportunidades e constrangimentos que o futuro coloca a todos.

Serviços urbanos de águas

Olhemos agora para a água e, de um modo particular, para os serviços urbanos de águas (SA). A água é uma condição, ou mesmo a condição, de existência da vida no planeta e os SA são serviços de interesse geral, satisfazendo necessidades essenciais para as famílias e as empresas. As características do sector, associadas à evolução do meio natural e social envolvente, exigem que o sector pense estrategicamente de modo a ultrapassar os desafios que se lhe colocam. Se pensarmos no longo prazo, vários reptos de diversa origem se colocam. Refiramos alguns: Alterações Climáticas; Divergência Demográfica; Economia Estagnada; Investimentos Pesados; Longas Vidas Úteis; Inovação Tecnológica.

Os recursos são escassos em boa parte do planeta e as alterações climáticas indiciam um agravamento da situação no longo prazo. À escassez associam-se os fenómenos extremos, como secas e inundações, obrigando a que se olhe para o tipo de serviço e de infra-estrutura dos SA com novos olhos.

A evolução demográfica, embora divergente, traz desafios adicionais. Globalmente a população mundial deverá aumentar, mas se olharmos para cada região do globo constata-se que a evolução é muito diversa: crescimento nuns, decrescimento noutros. Se olharmos para as projecções para Portugal, embora se possa constatar uma convergência em todos os estudos no sentido da diminuição da população, analisando região a região constatamos divergências evidentes.

A economia mundial, depois de décadas de crescimento exponencial, entrou numa fase em que o crescimento parece ter estagnado. Isto dever-se-á a vários factores: produtividade baixa, crises financeiras, regulação fraca, etc. Como resultado, alguns autores consideram-na mais como causa. Temos mais desigualdade, acompanhada por redução dos rendimentos das famílias, em termos relativos senão mesmo absolutos, menor poder de compra, desemprego, etc. Os impactos da designada por alguns economistas “estagnação secular” sobre os SA são evidentes. 

Os SA são uma indústria de rede que transporta um bem pesado e volumoso, muitas vezes percorrendo distâncias extensas e que exige um tratamento e um controle de qualidade muito elevados. Os custos de O&M são significativos e os investimentos bastante intensivos. Num contexto de crise climática, redução da população e estagnação de crescimento económico, gerir as necessidades de infra-estruturas como as dos SA, não é tarefa fácil.

Os activos patrimoniais têm vidas úteis extensas e períodos de recuperação de capital muito superior aos da generalidade das indústrias.

A capacidade de financiamento do sector é limitada por vários factores: rentabilidade do capital investido baixa, capacidade de recuperação dos custos através dos preços frequentemente inferior à necessária, necessidade de fazer com que o serviço chegue a toda a população independentemente da sua localização e níveis de rendimento, etc.  

Em termos de inovação, é certo que o sector é naturalmente conservador. Afinal, não se pode arriscar com o serviço que se presta à comunidade: a saúde pública assim o exige. Por isso se diz que os SA são mais seguidores do que líderes no que concerne à inovação. Mas a verdade é que se vive num momento de grande mudança nas tecnologias. Estamos a atravessar um momento de aceleração da história em que o novo parece brotar de todo o lado e o sector tem de a saber acompanhar. Por ex., a chamada água digital ou as aplicações da nanotecnologia têm de ser devidamente aproveitadas, as vantagens da economia circular são conhecidas, etc. Os SA têm de ter os seus olhos postos no futuro que a chamada Revolução 4.0 está a construir e aproveitá-lo devidamente.

De tudo o que atrás foi referido se deduz que a longa duração é uma característica do sector: um erro cometido hoje, além de poder envolver custos elevados, tem reflexos a longo prazo com sucessivas gerações a serem penalizadas. A necessidade de antecipar o futuro é, portanto, indispensável.

Os próximos 30 Anos dos serviços de águas

Em Portugal, a elaboração de estudos sobre o futuro dos serviços de águas não é prática comum, contrariamente ao que se passa noutros países. Encontramos somente estudos com horizonte temporal alargado no que concerne aos recursos hídricos e em projectos de infra-estruturas. No que concerne a abordagens holísticas (ambiental, demográfica, económica, social, tecnológica e politica) focadas no futuro dos SA e nas entidades gestoras, pode falar-se numa praticamente total ausência de estudos no nosso país.

Tendo em conta esta carência, resolveu a APDA levar a cabo um trabalho de prospectiva que designou por “Os Próximos 30 Anos: Sobre o Futuro dos Serviços de Águas”. O foco do trabalho foi definido do seguinte modo:Como Irão os Serviços de Água Cumprir a sua Missão em 2050”.

Para desenvolver o projecto foi criada uma Equipa de Coordenação Executiva (ECE), que integra técnicos que cobrem as várias valências (prospectiva, gestão de projectos, governância, economia/finanças, gestão de empresas, tecnologia, sociedade, etc.). Os membros da ECE são os responsáveis pela coordenação, concepção e desenvolvimento de todo o projecto. Numa 1ª fase integraram os 4 Grupos de Trabalho criados: GT 1: Demografia, território, economia, sociedade; GT 2: Ambiente e recursos hídricos; GT 3: Evolução e futuro das tecnologias de tratamento e informação; GT 4: Governância e modelos de gestão dos serviços de águas e, numa 2ª fase, assumiram a  responsabilidade pela concepção e caracterização dos cenários.

Para apoiar a ECE foi instituída uma Comissão de Acompanhamento (CA), que integra representantes de vários stakeholders do sector. Foi igualmente promovida a auscultação alargada de intervenientes do sector através da organização de seminários, workshops e inquéritos.

Sinteticamente, o projecto tem as seguintes etapas:

  • Arranque, organização, difusão e incitamento do projecto; (concluído)
  • Âmbito: definição de área de pesquisa – foco, objectivos do projecto e sistema a analisar; (concluído)
  • Elaboração do diagnóstico e definição das incertezas críticas (concluído)
  • O sector e a sua envolvente: definição das questões  a colocar, dos temas a analisar, das variáveis-chave e dos jogos dos actores e tendências pesadas;
  • Prospecção dos futuros possíveis e caracterização das incertezas e impactos;
  • Escolha dos factores-chave (incertezas críticas) para a construção dos cenários;
  • Construção dos cenários (em conclusão);
  • Transferência/ divulgação (a executar) Hídricos

No desenvolvimento do projecto utilizaram-se quer a revisão da literatura quer a investigação própria. Os estudos foram/estão a ser produzidos por equipas que integram, além de membros da ECE, também outros peritos convidados.

Foram elaborados dois inquéritos dirigidos a especialistas sobre “ A evolução e o tratamento das tecnologias de tratamento e informação” e sobre “Governança Modelos de Gestão dos Serviços de Agua”. Foram promovidos dois seminários, um sobre “O Mundo em 2050: Tendências, Riscos e Impacto no Território” e um 2º, internacional, sobre “O Mundo em 2050: A nova revolução industrial: implicações no sector da água”. Igualmente foram levados a cabo dois workshops, um sobre “Ambiente e Recursos Hídricos” e outro, no final da 1ª fase, sobre “Cenários Globais e as Implicações para Portugal e os Serviços Urbanos de Água” para discutir como os cenários globais e macro (ambiental, politico, económico, social e tecnológico) previamente elaborados, impactavam em Portugal e principalmente nos serviços de águas. No seu conjunto, colaboraram no projecto cerca de três centenas de especialistas de várias áreas. O projecto tem como patrocinadores a Águas de Portugal, Águas do Ribatejo e Navia, o apoio à publicação e divulgação da ERSAR e o apoio institucional do Ministério do Ambiente.

O trabalho de construção dos Cenários estará concluído de modo a ser apresentado durante o Encontro Nacional das Entidades Gestoras (ENEG), que se realizará em finais de Novembro. No entanto, a publicação dos produtos do projecto será feita somente em Janeiro de 2018 e durante esse ano, esperando-se levar a cabo encontros para o discutir com os actores do sector (administração pública, reguladores, entidades gestoras, empresas, municípios, associações ambientalistas e de consumidores, entre outros) os produtos deste exercício de cenarização.

A timeline a seguir apresentada retrata sinteticamente o que foi feito no projecto “Os Próximos 30 Anos: Sobre o Futuro dos Serviços de Águas”

Duas notas finais

A primeira para enfatizar o facto de, pese embora este exercício de prospectiva ser sectorial, o foco são os serviços de águas, pelo que a abordagem pretende ser, tanto quanto possível, holística. Por isso partimos de cenários globais para Portugal e daqui para os serviços de águas. A segunda para referir que desde o início que pretendemos construir cenários exploratórios e não desejáveis. Entendemos que não cabe a uma associação como a APDA estar a definir onde que se quer chegar. Essa é a missão dos actores, Estado central ou local, entidades gestoras, empresas públicas ou privadas. Ao projecto cabe conceber futuros possíveis e, assim, ajudar os agentes a definirem as suas estratégias, a desenharem o seu caminho.

Sérgio Hora Lopes escreve de acordo com a antiga ortografia

Sérgio Hora Lopes

Águas do Douro e Paiva, SA / Coordenador do Conselho Científico da APDA

Se quiser colocar alguma questão, envie-me um email para s.lopes@ADP.PT

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