A insustentável leveza … dos Resíduos Perigosos

FOTOGRAFIA L.LAWSON / UNSPLASH
Numa experiência realizada há algumas dezenas de anos, perguntava-se a um conjunto de engenheiros nucleares e a um igual número de colegas químicos, qual a sua apetência para habitar na proximidade de complexos químicos ou centrais de produção de energia nuclear.
Apesar de muitos acharem que o “não no meu quintal” (NIMBY) é apenas típico dos que não conhecem as maravilhas da técnica, os resultados mostraram que os químicos não gostariam nada de morar perto de centrais nucleares e não se importariam nada de viver perto de complexos químicos enquanto o oposto marcava as apetências dos seus pares da outra especialidade.
Este e outros dados demostram, não só que as reações negativas a certas infraestruturas são mais complexas do que parece e merecem processos muito mais participativos e de partilha de controlo com os diferentes stakeholders, como esse tipo de atitudes é desencadeado por perceções de risco psicossociologicamente ligadas ao modo como os diversos atores sociais as avaliam.
Não será, então, estranho que qualquer português que seja confrontado com uma pergunta equivalente sobre aterros de resíduos perigosos ou não perigosos escolha, “naturalmente”, mas apenas se a tal for obrigado, os segundos em relação aos primeiros. Natural? Sim, mas provavelmente errado. Aliás, temos várias instalações de tratamento de resíduos perigosos no país e muitos aterros de resíduos sólidos urbanos. As queixas sobre os segundos são muito mais frequentes do que sobre os primeiros.
O que se segue é apenas um pequeno enquadramento que pretende ir para além do senso comum sobre resíduos perigosos, justificando a razão por que eu escolheria viver mais perto de um aterro de RP que de um de RSU.
E isso porque, primeiro, Perigoso não define o Risco real, mas potencial. Segundo, porque a Proveniência não clarifica a Natureza (por exemplo, alguns dos resíduos perigosos vêm das nossas casas e não das indústrias). E terceiro, e talvez mais importante do que tudo o resto, aquilo que possui um risco potencial, na maior parte dos casos, tem de deixar de o ter antes de ser eliminado (i.e., depositado em aterro por exemplo).
Da importância da palavra
Os problemas de localização de infraestruturas avaliadas como negativas pelas comunidades, a que dediquei, e continuo a dedicar, muita da minha atividade profissional e académica, são particularmente acessos quando se trata de resíduos perigosos. Uma parte significativa da problemática radica na palavra e no modo como, em português, se acentua uma perceção de risco que é comum a quase todas as latitudes. Quando se designa algo como perigoso significa, na mente de todos nós, algo que não só detém alguma propriedade intrínseca de perigo, mas também a probabilidade de algo negativo acontecer. Ou seja, perigoso para nós é, a um tempo, o perigo que reside na “coisa”, como o risco que o contacto ou a interação com a “coisa” envolverá. I.e., confundimos o perigo com o risco. Algo perigoso é algo que, como veremos, tem o potencial para causar dano (...)
Autor: José Manuel Palma-Oliveira
Perito Sénior para a Indústria da S317 Consulting
Ex-presidente da Society of Risk Analysis Europe
Professor aposentado da Universidade de Lisboa
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