Entrevista a Andreas Matzarakis

Entrevista a Andreas matzarakis

D.R.

Investigador na Universidade de Friburgo, Andreas Matzarakis tem dedicado a carreira à meteorologia e, mais concretamente, à biometeorologia.

Os efeitos do calor no corpo humano preocupam-no, e levam-no a pedir uma colaboração mais estreita entre autoridades, cientistas e proteção civil, em prol da proteção dos mais vulneráveis e também da adaptação das cidades a condições de vida que as alterações climáticas tornam cada vez mais desafiantes.

O relatório do Estado Europeu do Clima (Copernicus, 2025) confirma que a Europa aquece duas vezes mais depressa do que a média global. Enquanto isto acontecia, uma onda de calor histórica afetava regiões como a Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia. De que forma estes países, e também as autoridades municipais, se podem preparar para estas situações, incomuns nestas geografias?

Não se trata apenas de aquecimento, porque há outros fatores meteorológicos e climatológicos a mudar. As condições médias estão a alterar-se - está mais quente e o padrão de precipitação está a mudar. Na Europa, provavelmente teremos uma mudança, com mais chuva no inverno, mas em algumas áreas haverá menos chuva, como no Mediterrâneo e na Europa Ocidental. Mas haverá uma mudança, e teremos alterações nos extremos, sendo que os extremos têm fatores específicos. Um desses fatores são as consequências, os danos económicos. A outra questão, naturalmente, é o número de eventos, que serão cada vez mais, e temos de nos preparar para isso. E o terceiro é que teremos vítimas. Isto significa uma alteração na mortalidade, e também mais admissões nos hospitais e pessoas a ir mais ao médico.

Quando falamos de extremos, temos, portanto, diferentes eventos. Teremos furacões, tornados, teremos seca, subida do nível da água do mar, incêndios, e isto é importante, em combinação com outros fatores. E depois teremos eventos extremos em termos de precipitação, como houve em 2023 no Mediterrâneo. Isto tem efeitos nos seres humanos e nos sistemas. E depois temos outro fator, que é o mais importante, que estamos certos que irá mudar no futuro, aliás já está a mudar, que é o calor, combinado com a poluição atmosférica e os incêndios florestais.

Temos de nos preparar para o calor, e para isso temos de considerar todos os setores, todos os ramos, todos os departamentos. Não há departamento ou autoridade que não tenha de lidar com o calor. E para nos prepararmos precisamos, primeiro, de informação. A informação, ou a informação proporcionada pelos governos ou pelas autoridades oficiais, pode consistir num sistema de alerta para os impactes do calor na saúde, mas pode também ser um sistema de alerta acerca de outros eventos extremos.

Podemos aplicar todos estes fatores, mas não precisamos apenas de alertas. Precisamos de ações. Nestas ações inclui-se o que fazemos. Não podemos prevenir o evento extremo, mas podemos prevenir os seus efeitos. Isto significa que se alguém, durante este calor extremo, vai para o exterior e tem de ficar três horas ao sol, com 35 ou 40 graus Celsius, temos de transmitir a estas pessoas o que fazer. Precisamos, em primeiro lugar, de um sistema de informação. Também precisamos de ações, sobretudo no contexto do calor, especialmente nas cidades, que é onde a maioria das pessoas vive. E nós precisamos das cidades. As cidades são fantásticas, conseguimos alcançar tudo em pouco tempo: a farmácia, o médico e outras coisas de que precisamos.

Nestas ações inclui-se, durante a situação aguda, mudança de comportamento e ajuda mútua, e depois temos o longo prazo, que é sobre preparação no sítio onde vivemos. E esse sítio pode ser o nosso jardim, mas também a cidade ou a área residencial que habitamos, e as pessoas que vivem no seu interior, porque nós vivemos a maior parte do tempo no interior, não no exterior, e não podemos esquecer isso.

Nesta combinação, eu sou adepto de ações de baixo custo que possam ser aplicadas de forma simples e rápida. Isto é informação para gerir o comportamento das pessoas, mas temos de informar e avisar os setores responsáveis. Em primeiro lugar, o setor da saúde e da prestação de cuidados, e também o setor "pessoal", porque qualquer um de nós tem de cuidar, por exemplo, de pessoas idosas. A outra questão é a forma como construímos o edificado, de quantas áreas de recreação precisamos enquanto infraestrutura verde, talvez também enquanto infraestrutura azul, mas também abordagens que sejam soluções técnicas. Tudo isto só pode ser feito de forma combinada. Todos devem trabalhar em conjunto - meteorologistas, médicos, geógrafos, autoridades e departamentos ambientais. As pessoas pensam que o calor nas cidades acontece durante o dia. Não, o calor também acontece durante a noite porque à noite não conseguimos recuperar (...)

Leia a entrevista completa na Indústria e Ambiente nº 158, maio/ junho 2026

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