O tempo e as alterações climáticas

FOTO NOAH BUSCHER/ UNSPLASH

Um dos aspetos mais interessantes do tempo são as chamadas decisões intertemporais. Trata-se de decisões tomadas no presente mas com consequências em vários períodos de tempo futuros mais ou menos distantes. Na realidade estamos sempre a decidir intertemporalmente. O desconto temporal mede o maior valor atribuído a uma recompensa, por exemplo um prémio ou pagamento, quando é feito agora relativamente ao valor atribuído à mesma recompensa adiada de um, dois, dez ou vinte anos. Esta desvalorização causada pelo tempo de adiamento é designada desconto temporal.

A forma como a perceção do valor da recompensa diminui ao longo do tempo de adiamento é a função de desconto temporal psicológica. No contexto da economia, assume-se que esta função é exponencial, o que implica uma taxa de desconto temporal fixa, independente do tempo. Quanto maior a taxa de desconto, mais forte é o desconto temporal. No entanto, a taxa a que as pessoas descontam as recompensas futuras diminui com a duração do adiamento, pelo que a função de desconto temporal psicológica não é exponencial. O comportamento empiricamente deduzido é mais próximo de uma função hiperbólica. 

Reduzir as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) tem obviamente um custo no presente, mas tem também um benefício que em termos de estabilização da temperatura média global da atmosfera à superfície só será tangível no futuro, daqui a muitas décadas, provavelmente mais de um século, portanto beneficiará sobretudo as gerações futuras. Torna-se, assim, imprescindível estimar um custo para as consequências das emissões de CO2 para poder comparar os custos presentes de mitigação com os seus benefícios futuros. Para tal é necessário responder a duas perguntas. A primeira é saber qual o custo marginal dos impactos causados pela emissão de uma tonelada adicional de CO2 ou seu equivalente em qualquer ponto do mundo? Este custo tem o nome de custo social do carbono (CSC). O CSC inclui as perdas e danos pessoais, sociais e materiais provocados pelos impactos das alterações climáticas, especialmente pelos eventos extremos, e a redução da produtividade nos vários setores socioeconómicos. Inclui ainda de forma indireta a mitigação dado que se se investir em mitigação robustamente os impactos futuros das alterações climáticas serão atenuados. Por vezes em lugar de se avaliarem os custos dos impactos à escala global avaliam-se apenas para um país e região do mundo. Nestes casos temos CSC domésticos ou nacionais e CSC regionais. A segunda pergunta é: quanto custa atualmente evitar o prejuízo futuro das alterações climáticas?

As respostas às duas perguntas envolvem análises de natureza distinta. Quanto à primeira, a ciência das alterações climáticas permite-nos estimar os prejuízos acumulados até um determinado tempo futuro dos impactos adversos das emissões atuais. A resposta à segunda pergunta envolve conceitos de economia e ética, onde é mais difícil chegar a consenso. Neste caso, a questão é saber como evolui o valor do dinheiro com o tempo. A taxa anual usada para calcular o valor atual de um valor monetário futuro é a chamada a taxa de desconto temporal e desempenha um papel crucial na política de mitigação das alterações climáticas e em muitas outras atividades económicas que envolvem o médio e longo prazo. (...)

Leia o artigo completo na Indústria e Ambiente nº 146, mai/jun de 2024

Filipe Duarte Santos

Autor da coluna Alterações Climáticas / Presidente do CNADS

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