Quando a chuva intensa encontra a cidade: compreender e mitigar as inundações urbanas

FOTO D.ROY/ UNSPLASH

As inundações são essencialmente fenómenos naturais. A água obedece à gravidade, ocupa depressões, concentra-se em linhas de escoamento e, quando o caudal excede a capacidade do canal ou da rede de drenagem, extravasa. O impacto nas atividades e infraestruturas humanas, porém, depende do modo como ocupamos o território, impermeabilizamos os terrenos, estreitamos linhas de água, construímos em áreas deprimidas e, no fundo, da forma como nos organizamos e interagimos com os sistemas de drenagem.

Em Portugal continental, a irregularidade climática é uma característica estrutural (Ramos e Reis, 2002). A precipitação concentra-se nos meses frios, alterna anos muito húmidos com anos secos e ocorre, por vezes, em episódios intensos e espacialmente muito desiguais. Esta variabilidade ajuda a explicar a coexistência de dois problemas apenas aparentemente contraditórios: cheias e secas. No mesmo território, e por vezes no mesmo ano hidrológico, podemos passar de excesso temporário de água para escassez prolongada.

Neste contexto, os conceitos não são irrelevantes. Expressões aparentemente inofensivas, frequentemente veiculadas nos media, como “o rio já recuou para o seu leito”, “não chove aqui, por isso os caudais vão baixar” ou “as barragens estão cheias, por isso não haverá seca nos próximos anos”, traduzem uma leitura simplificada e distorcida do ciclo hidrológico. Um rio não “recua” para um lugar exterior ao seu funcionamento: em cheia, ocupa o leito maior ou planície de inundação. A chuva que determina o caudal de uma povoação pode estar a ocorrer dezenas ou centenas de quilómetros a montante. E o armazenamento pleno das barragens aumenta a segurança hídrica no curto prazo, mas não elimina a possibilidade de seca meteorológica, agrícola ou hidrológica nos anos seguintes. Este cuidado conceptual não é preciosismo: influencia a forma como se comunica o risco e como a população interpreta a ameaça.

Importa também distinguir tipos de inundação (Ramos e Reis, 2002). As inundações fluviais (ou cheias) resultam da subida do nível da água em rios e ribeiras. Podem ser progressivas, associadas a grandes bacias e rios como o Tejo, Douro, Mondego, Sado ou Guadiana, ou rápidas, quando ocorrem em pequenas bacias hidrográficas com tempos de resposta curtos. Já as inundações urbanas propriamente ditas estão ligadas à incapacidade temporária do espaço urbano para escoar a água da chuva: excesso de impermeabilização, coletores subdimensionados, sarjetas obstruídas, zonas deprimidas, túneis, passagens inferiores, obstáculos ao escoamento ou antigas linhas de água encanadas. Em meio urbano, estes processos podem coexistir, mas exigem respostas diferentes. Uma inundação fluvial deve ser pensada à escala da bacia hidrográfica; uma inundação pluvial urbana depende muito da organização local do espaço público, das condições locais da drenagem e da permeabilidade.

Precipitação intensa e inundações urbanas

No contexto climático português, a precipitação é o fator desencadeante de inundações, e a diferença entre acumulação e intensidade é central para compreender este problema. Chover muito ao longo de vários dias não produz necessariamente inundações urbanas graves; pode antes gerar saturação dos solos, subida gradual dos caudais e cheias progressivas. Pelo contrário, uma chuvada curta, intensa e concentrada pode causar inundações urbanas em poucos minutos, mesmo quando o valor acumulado diário ou mensal não é excecional.

O recente período de meados de outubro de 2025 a meados de fevereiro de 2026 ilustra bem esta diferença. Neste, pode-se individualizar dois períodos: um que decorre de 16 de outubro a 15 de novembro de 2025, que culmina na depressão Claudia, na qual a fase mais intensa e crítica ocorreu nos dias 12 a 14 de novembro; outro, que decorre de 16 de janeiro a 15 de fevereiro de 2026, caracterizado pela passagem de várias depressões (Harry, Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo, Marta), centrada de 22 de janeiro a 8 de fevereiro. Os dados de precipitação registados para a estação em Lisboa-Carnide (rede AML: https://clima.aml.pt/) fornecem, respetivamente, 222,6 mm e 346,6 mm de precipitação para estes dois períodos. Observando apenas estes totais, seria tentador concluir que janeiro e fevereiro deveriam ter produzido mais inundações urbanas. Mas a hidrologia urbana responde sobretudo aos picos de curta duração. (...)

Autor Eusébio Reis, Professor Associado no Instituto de Geografia e Ordenamento do Território Licenciado em Geografia e Planeamento Regional, mestre em Hidráulica e Recursos Hídricos e doutorado em Geografia

Leia o artigo completo na Indústria e Ambiente nº 158, maio/ junho 2026, dedicada ao tema "Adaptação das cidades às alterações climáticas"

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