Torres Vedras debate modelos agrícolas focados na resiliência e no papel das mulheres

FOTO SITE CÂMARA MUNICIPAL DE TORRES VEDRAS

João Guilherme Oliveira

Os campos do Oeste têm assistido a uma transformação silenciosa, mas estrutural, na sua principal atividade económica. Foi sob este mote que a Câmara Municipal de Torres Vedras organizou o 4º Seminário de Agricultura Sustentável. O fórum serviu para debater práticas que cruzam a rentabilidade financeira com a preservação ambiental no território.

A sessão de abertura foi protagonizada pelo vice-presidente do município, Diogo Guia, que defendeu a centralidade histórica e contemporânea do setor primário. Para além de sustentar o tecido social da região, a atividade agrícola assume-se como um pilar econômico indispensável para o país. Em jeito de balanço estratégico, o autarca destacou a criação da recente área do mundo rural dentro da orgânica camarária, justificando a medida com a ambição do município em dotar o território de ferramentas que tornem o setor mais inovador, dinâmico e atrativo para novos investidores e jovens profissionais.

Um dos pontos fulcrais da intervenção de Diogo Guia prendeu-se com a necessidade urgente de criar uma marca própria para os produtos agrícolas do Oeste. Segundo o vice-presidente, este selo de identidade regional será uma alavanca fundamental para consolidar a prosperidade dos produtores locais, permitindo-lhes posicionar os seus artigos com maior valor acrescentado, tanto nos lineares nacionais como no altamente competitivo mercado internacional.

O protagonismo feminino e as novas correntes agrícolas

A edição deste ano assumiu uma carga simbólica redobrada, uma vez que a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2026 como o Ano da Mulher Agricultora. Respondendo a este desafio, a organização do seminário reuniu um painel e uma mesa redonda exclusivamente compostos por mulheres que lideram projetos agrícolas inovadores em termos de produção e comercialização.

Estas gestoras partilharam as suas experiências na vanguarda da agroecologia, demonstrando como as explorações comerciais podem prosperar através de correntes sustentáveis, como a agricultura biológica, a agricultura sintrópica e a agricultura regenerativa. As oradoras sustentaram que a transição para sistemas mais limpos não representa um recuo no tempo, mas sim a aplicação da ciência e conhecimento empírico avançado para regenerar os solos e manter a biodiversidade.

As reflexões saídas do debate apontaram caminhos muito concretos para os decisores políticos e produtores que pretendam dar o salto rumo à sustentabilidade:

  • Capacitação e literacia: É imperativo alargar a formação técnica dos agricultores no que toca a práticas ecológicas e, em simultâneo, sensibilizar o consumidor comum para as vantagens deste modelo estratégico.
  • Mecanismos de compras públicas: O apoio estatal não se deve limitar a subsídios diretos; propõe-se que os circuitos de restauração pública (como cantinas escolares e de hospitais) priorizem e comprem obrigatoriamente a produtores locais de caráter agroecológico, garantindo o escoamento da produção.
  • Serviços de ecossistema: Desenhar estratégias efetivas de pagamento aos agricultores pelos serviços ambientais que prestam à comunidade (como a fixação de carbono e conservação da água).
  • Remunerações e fixação de pessoal: Criar valor acrescentado nos produtos agroecológicos permite pagar melhores salários, tornando a carreira agrícola mais apelativa e combatendo a escassez crônica de mão-de-obra na lavoura.
  • Saúde e Densidade Nutricional: Alimentos livres de químicos de síntese oferecem maior densidade de nutrientes, posicionando a alimentação como uma ferramenta crucial de saúde pública e medicina preventiva.
  • Escala económica: Promover o emparcelamento de propriedades rústicas para dotar as explorações de dimensões competitivas e economicamente viáveis para o produtor.
  • Ação Local e Participação: Reforçar o papel dos Grupos de Ação Local (GAL) na captação de fundos e garantir que a sociedade civil e os diferentes setores participem ativamente no desenho das estratégias territoriais de transição.

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