Os Factos e as Relações Públicas

FOTO WES WARREN/ UNSPLASH
O ano de 2022 ficará na memória de muitos pela severidade dos eventos meteorológicos extremos. Inundações colossais no Paquistão, secas prolongadas no Corno de África (Etiópia, Somália, Sudão do Sul e Quénia), Europa e China, ondas de calor em quase toda a Europa, Mediterrâneo Ocidental, Norte de África, Paquistão, onde em 14 de maio se registaram 51°C em Jacobabad (a temperatura mais elevada jamais registada numa cidade), China, Sueste Asiático, temperaturas anormalmente elevadas no Pacífico Norte e Sul, incêndios florestais de grande duração e extensão nos Estados Unidos, e em algumas regiões do Sul da Europa. O aumento do degelo de alguns glaciares nos Himalaias elevou o caudal dos rios, contribuindo para as inundações no Paquistão associadas à monção. Registaram-se cerca de 1300 vítimas mortais, 33 milhões de pessoas deslocadas, 1,8 milhões de casas danificadas ou destruídas, centenas de milhar de cabeças de gado perdidas e culturas agrícolas destruídas, provocando uma situação grave para a segurança alimentar do país nos próximos meses.
Na UE, até 6 de setembro, de acordo com o EFFIS (European Forest Fire Information System), os incêndios florestais queimaram um recorde de 777 mil hectares (o triplo da área do Luxemburgo), a área mais elevada desde que há registos, o que provocou a emissão de cerca de 4,71 milhões de toneladas de CO2, e prejuízos avaliados em 8055 milhões de euros. Os países mais afetados foram Espanha, Roménia e Portugal, com 293 mil, 149 mil e 103 mil hectares de área queimada. Em Portugal as emissões de CO2 são estimadas em 620 mil toneladas e os prejuízos em mil milhões de euros. Devido à seca, a componente hídrica de geração de energia elétrica em Espanha, França e Portugal diminuiu acentuadamente, contribuindo para um aumento da importação de energia elétrica de Espanha para Portugal, que no primeiro semestre de 2022 atingiu 21% e 24% no mês de junho. Na Alemanha a navegabilidade do rio Reno foi significativamente afetada. A distribuição das anomalias da precipitação à escala global é fortemente influenciada pelo El Niño – Oscilação do Sul. Provavelmente, 2023 vai ser o terceiro ano consecutivo de La Niña, uma ocorrência relativamente rara.
As alterações climáticas antropogénicas resultantes da emissão de gases com efeito de estufa para a atmosfera, principalmente CO2, CH4 e N2O, não são a causa direta das secas e das precipitações elevadas, mas tornam esses eventos mais intensos e, por vezes, mais frequentes. O acréscimo da temperatura média global, provocado pelo aumento do efeito de estufa, incrementa a evaporação das águas superficiais e a evapotranspiração, secando as áreas que têm tido pouca precipitação. Simultaneamente, o ar mais quente aumenta a quantidade de vapor de água que a atmosfera pode reter, e a atmosfera mais sedenta diminui ainda mais a humidade dos solos. Por seu lado, o excesso de vapor de água na atmosfera é transportado pelos ventos e provoca chuvas mais intensas a grandes distâncias, onde já era frequente chover. A quantidade de vapor de água na atmosfera aumentou de 5 a 20% relativamente a 1970. Acresce que o vapor de água é um poderoso gás com efeito de estufa, pelo que o aumento da sua concentração atmosférica amplifica o aquecimento global. A evaporação da água absorve calor que mais tarde é libertado quando o vapor de água resultante da evaporação se condensa e produz precipitação. Esse calor adicional libertado devido ao aquecimento global alimenta tempestades mais intensas e de maior duração, aumentando a precipitação associada até 30%. (...)
Autor da coluna Alterações Climáticas / Presidente do CNADS
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