Duas faces da mesma moeda

FOTO MATT PALMER/ UNSPLASH

A qualidade do ar e as alterações climáticas são duas faces da mesma moeda. A queima de combustíveis fósseis liberta, ao mesmo tempo, gases com efeito de estufa (GEE) que aquecem o planeta e poluentes como partículas, óxidos de azoto (NOx), entre muitos outros, que prejudicam a saúde e o ambiente. A ciência reforçou este diagnóstico: as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS) de 2021 recomendam, para proteger a saúde, concentrações anuais de diversos poluentes muito abaixo dos observados em grande parte do mundo, incluindo nos países desenvolvidos. Estas metas refletem uma evidência robusta de efeitos adversos, mesmo a concentrações baixas, pelo que reduzir as emissões é um imperativo de saúde pública, a par de uma transição energética que reduz os riscos de aquecimento no médio prazo e a magnitude das alterações climáticas. 

A nível global, o denominado Emissions Gap Report 2025 das Nações Unidas, divulgado dias antes da 30ª Conferência das Partes da Convenção para as Alterações Climáticas (COP30), que teve lugar em novembro, deixa claro que o ritmo atual de redução de emissões é claramente insuficiente: com as promessas disponíveis, o mundo continua fora de rota e exposto a riscos e danos crescentes. O relatório salienta que são necessários limites de emissão bem mais ambiciosos por parte de cada um dos países, as chamadas contribuições nacionalmente determinadas, ao longo desta década, para impedir um aquecimento de longo prazo superior a 1,5 °C em relação à era pré-industrial ao alcance e reduzir a dependência de remoções futuras de carbono ainda muito incertas. Em poucas palavras, a urgência climática exige ação estrutural desde já, e essa mesma ação produz co-benefícios diretos na qualidade do ar.

No terreno, as grandes cidades de países em desenvolvimento continuam a enfrentar episódios severos. Daca, capital do Bangladesh, voltou a figurar entre as mais poluídas do mundo em 2025, com médias anuais de partículas finas muito acima das recomendações da OMS e episódios frequentes de “ar não saudável”; é um retrato da combinação de tráfego intenso, combustão ineficiente e queima de resíduos. Lahore, no Paquistão, tem decretado medidas extraordinárias — de alterações de horários escolares a encerramentos temporários — em resposta ao smog, um misto de emissões locais e condições meteorológicas desfavoráveis. Em Hanói, capital do Vietname, vários episódios de smog no início de 2025 impulsionaram medidas para acelerar a eletrificação do transporte público e dos táxis até 2030. Estes exemplos mostram que os motores do problema são conhecidos e que as soluções — descarbonizar energia e mobilidade, gerir queimas agrícolas e resíduos — são as mesmas que para as alterações climáticas. 

No caso da União Europeia, o enquadramento legislativo ficou recentemente mais exigente. A revisão da Diretiva da Qualidade do Ar Ambiente, Diretiva (UE) 2024/2881, de 23 de outubro de 2024, que promove um ar mais limpo na Europa, estabelece novos valores-limite obrigatórios para 2030, aproximando-os das linhas orientadoras da OMS, entre outras medidas de governação e acesso à justiça. A mensagem é inequívoca: os Estados-Membros têm de planear e implementar medidas desde já para cumprir em 2030 os novos valores-limite. A Agência Europeia de Ambiente confirma que, embora as concentrações tenham descido nas últimas décadas, o esforço adicional para atingir os novos limites e, mais ainda, aproximar-se das metas da OMS, exigirá políticas estruturais em setores como os transportes, aquecimento doméstico e agricultura.  (...)

Leia o artigo completo na Indústria e Ambiente nº 155, novembro/dezembro 2025

Francisco Ferreira

Autor da coluna Ar

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