As alterações climáticas e os recursos hídricos na Península Ibérica

FOTO SIMON HURRY/ UNSPLASH
No primeiro volume (Grupo de Trabalho 1) do 6º relatório do IPCC, publicado em agosto de 2021, afirma-se que “desde 1950, aumentou a probabilidade de eventos extremos conjugados, incluindo aumentos na frequência de ondas de calor e secas conjugadas à escala global, e aumentou a probabilidade de incêndios rurais e florestais e de inundações conjugadas (conjugação de sobrelevação meteorológica com precipitação extrema ou com escoamento fluvial extremo) em algumas regiões ”. No período de 1970-2019 houve mais de 11 mil desastres atribuídos ao tempo, ao clima e aos extremos de precipitação no mundo, com mais de dois milhões de mortes e prejuízos avaliados em 3,64 milhões de milhões de dólares. A disponibilidade de água, um recurso crucial para a saúde humana e o desenvolvimento social e económico, está sob pressão crescente a nível mundial devido às alterações climáticas, a outros fatores naturais e à procura crescente. Nos últimos 20 anos os reservatórios terrestres de água doce reduziram-se globalmente de 1cm por ano. Estima-se que haja 2300 milhões de pessoas com acesso inadequado à água pelo menos um mês por ano e que este número irá provavelmente aumentar para cinco mil milhões em 2050. As secas serão um dos impactos mais dramáticos das alterações climáticas para centenas de milhões de pessoas.
O aumento da evapotranspiração provocado pela diminuição da precipitação e aumento da temperatura média global da atmosfera à superfície (TMGAS) está a diminuir a humidade do solo na região do Mediterrâneo, Sudoeste da América do Norte e do Sul e Sudoeste da Austrália. Toda a Europa está a ser afetada por secas mais frequentes, exceto no extremo norte, embora a região onde a diminuição da precipitação média anual é mais acentuada é o sul, ou seja a Região do Mediterrâneo, onde se encontra a Península Ibérica. A redução da precipitação média anual observa-se em toda a Península mas é mais notória e tem em geral efeitos mais gravosos no Sul devido ao acentuado gradiente de precipitação entre o Norte e Noroeste da Península e grande parte do interior e do Sul. Resulta destes factos que as disponibilidades de água na Península estão a diminuir e essa diminuição vai agravar-se no futuro, até que se controlem as alterações climáticas e que o clima comece a retornar ao que era no século 19.
Portugal, a Península Ibérica, o Sul da Europa e toda a região do Mediterrâneo estão confrontadas com um problema de recursos hídricos decrescentes. É um problema conhecido do ponto de vista científico mas alguns países tardam em iniciar políticas e medidas de adaptação ao novo clima. Neste contexto, é bem-vinda a publicação de um resumo das conclusões de um estudo preliminar encomendado pela Agência Portuguesa do Ambiente sobre a “Avaliação das disponibilidades hídricas atuais e futuras e aplicação do índice de escassez WEI+” em Portugal Continental, que se encontra em consulta pública até 30 de junho. O estudo inclui também Espanha, dada a necessidade óbvia de incluir as bacias hidrográficas dos rios internacionais da Península na estimativa das disponibilidades hídricas. Uma das conclusões deste estudo é o facto de o número de estações meteorológicas com dados de precipitação ter baixado de forma significativa. O investimento na monitorização da precipitação iniciou-se em 1900, em 1995 o número de valores de precipitação mensal disponíveis atingiu um máximo, e depois decresceu, estando agora ao nível de 1950. (...)
Autor da coluna Alterações Climáticas / Presidente do CNADS
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