Um vestido sustentável para Cinderela

Em 1697, Charles Perrault publicou Cendrillon ou la Petite Pantoufle de Verre (Cinderela ou a pequena pantufa de vidro), fixando a sua versão de um conto popular conhecido há muito, pelo menos na Europa. Há versões mais tardias, como a dos irmãos Grimm (1812) e, se todas diferem entre si, todas concordam no facto de Cinderela (nome que deriva da palavra “cendre” – cinza – junto da qual a heroína fazia a sua vida doméstica, estando por isso sempre enfarruscada) só ter podido ir ao baile porque a fada-madrinha lhe “fez” um vestido muito belo com um simples toque de varinha mágica e transformou uma abóbora e ratos numa carruagem, no cocheiro e em garbosos cavalos.

Perguntar-se-ão a que propósito vem esta história, que preenche o imaginário colectivo, a uma revista sobre indústria e ambiente. Na verdade, poucos textos se relacionam tão bem com o tema deste número, Moda Sustentável. Cinderela estabelece um padrão de beleza feminina (“As meias-irmãs fizeram dieta, não comeram durante dois dias e ficaram com cinturas de vespas”) e, por outro lado, a fada madrinha “usa” a natureza animal, transformando-a, para dar a dignidade necessária para que a Gata Borralheira (borralho) se possa apresentar no palácio.

Deixando de lado as questões de submissão das mulheres para que o conto naturalmente remete, pensemos que, actualmente, em média, uma peça de roupa é usada apenas sete vezes e depois deitada no lixo. Estima-se que 17,5 Kg de roupa são deitados fora por cada europeu. Dados de 2017, para a Europa, apontavam para 6,4 x 106 ton roupas novas por ano, que representavam 12,66 Kg/habitante e que, entre 1996 e 2012 aumentou 40% o consumo de novas peças de vestuário.

Em situação de pandemia, como a que vivemos, somos obrigados a repensar os nossos comportamentos, hábitos e formas de estar na vida e na relação com os outros.

A estrutura económica, tal como a conhecemos, está “abalada” e há sectores produtivos onde os efeitos se farão sentir de forma exuberante: na moda, por exemplo.

Os números assustam, tanto mais quando sabemos que a indústria têxtil é das mais poluentes com impactes no consumo de água, na erosão do solo, na produção de resíduos ou nas emissões de CO2. A estes juntam-se ainda aspectos laborais, problemas de género e, ainda, a saúde pública e a fome.

Felizmente, porém, Portugal tem incorporado a sustentabilidade como prioridade para o sector. Várias empresas e associações adoptaram técnicas, métodos e políticas que estão em linha com as chamadas medidas ecológicas, elegendo a ética e a sustentabilidade como valores e padrões. Estas preocupações são partilhadas pelos designers, pelos produtores, pelas marcas que sabem que os consumidores já olham para a composição das peças que compram e preferem as que usem materiais sustentáveis, com minimização do desperdício, que se enquadrem nas políticas da economia circular e na não exploração de mão-de obra infantil.

A Cinderela do século XXI veste um fato deslumbrante e a fada madrinha recorre à Moda Digital… Este é o “modelo” dos nossos dias.

Este número tem valor sentimental para mim: a co-editora, Ana Filipa Costa, foi minha aluna, sendo uma grande activista na área da Moda Sustentável. Agradeço a sua disponibilidade, o envolvimento e a partilha de conhecimento deste sector, onde já ganhou o reconhecimento, do qual me orgulho, e que nos permitiu ter uma entrevista com Eduarda Abbondanza, presidente da Moda Lisboa, professora, ela própria uma referência no mundo da moda, a quem presto homenagem. Agradeço também aos outros convidados especialistas com a certeza de que todos ficamos mais ricos e mais “fashion” com tantos contributos sustentáveis.

Editorial da Indústria e Ambiente nº122 maio/jun 2020

Leonor Amaral

Diretora da Indústria e Ambiente / Professora na FCT-UNL

Se quiser colocar alguma questão, envie-me um email para lmma@fct.unl.pt

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