Tecnologia e robotização no contexto florestal

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O quase inevitável Elon Musk foi a Davos este ano predizer que o número de robots suplantará o número de humanos no planeta e a IA vai superar a inteligência humana no final de 2026 ou em 2027, e lá para 2035 estaremos num mundo de superabundância. Combinando as anteriores profecias, quase poderíamos dizer que o melhor mesmo é deixarmos o trabalho e a governação para os robots e dedicarmo-nos a ser animais de estimação, isto se os robots nos aceitarem bem!
Mas quando falamos de floresta, é um território que para a maioria das pessoas é um espaço longínquo para onde se vai com roupas de trekking fazer experiências imersivas na natureza, ou para contemplar de estradas sinuosas a paisagem em belos SUV, pelo que não associamos de imediato tecnologia e robótica a estes lugares que queremos imaculados da nossa humanização ou, agora, robotização. No entanto, e regressando à floresta portuguesa, estes espaços representam 39 % do território continental e somando os sistemas agro-florestais, a área arborizada representa 49 % (COS2018) ou seja, metade. E é neste território que 34 % da população vive em área rural, por isso um terço vive em metade da área, aqui incluindo vilas e aldeias (Censo 2021). Mas os que trabalham na agricultura, pecuária, caça, silvicultura e pesca representam 2,9 % da população ativa (INE, 2T 2024) e, destes, 72 % são homens.
Se olharmos estritamente para o âmbito da atividade florestal, incluindo todos os setores (silvicultura, indústrias de base florestal, comércio grossista de madeira e cortiça e sapadores florestais), as estatísticas nacionais indicam que o emprego florestal representa 2,25 %, cerca de 105 mil pessoas, e alargando às pessoas que desenvolvem atividades relacionadas com a floresta, chega-se a 115 mil pessoas (site Florestas.pt, 2023), dos quais 80 mil trabalham nas indústrias florestais. É bastante claro que a presença regular humana em mais de um terço do território nacional é inferior a muitas freguesias urbanas (ex: a freguesia de Mafamude e Vilar do Paraíso tem 52.850 habitantes, Censos 2021). Já entendemos que não há muita gente para cuidar de toda a cadeia florestal, desde as plantações à colheita dos produtos, desde a proteção das matas ao combate direto a pragas, doenças, vendavais e incêndios. E acrescentando todos os que estão a preencher a imensa burocracia associada, em boa parte devido a uma regulamentação excessiva e de interpretação subjetiva e casuística, não resta muita gente para olhar, registar, experimentar e fazer ações no terreno.
É o momento de dar nota que as imagens que acompanham este texto são propositadamente de pessoas que trabalham na floresta portuguesa, pois estas são as mais difíceis de ver, já que robots e equipamentos, ou sistemas tecnológicos, são abundantes na net e nos media em geral. (...)
Autor: José Luís Carvalho
Engenheiro Florestal
Coordenador de Inovação Florestal na
The Navigator Company
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