Da insustentabilidade linear à bioeconomia circular: tendências globais, pressões sobre a madeira e a resposta industrial da Sonae Arauco

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A economia linear permanece como o paradigma dominante dos sistemas produtivos, assente num modelo sequencial de extração, transformação, consumo e eliminação. Este modelo recorre a recursos naturais como inputs primários para processos industriais que originam produtos com ciclos de vida limitados e que, no fim de utilização, são maioritariamente encaminhados para aterro, sem integração em circuitos de valorização, reutilização ou reciclagem.
A repetição deste sistema ao longo das cadeias de valor implica elevados consumos de matérias-primas e energia, gerando simultaneamente resíduos e emissões. A ausência de mecanismos de recuperação eficientes de materiais conduz à perda de valor económico e ao agravamento das pressões sobre os ecossistemas e sobre a disponibilidade futura de recursos. Entre os impactos estruturais deste paradigma destacam-se o consumo excessivo de recursos naturais, a perda de biodiversidade, a geração crescente de resíduos e poluição e o aumento das emissões de gases com efeito de estufa.
Os dados mais recentes do Global Resources Outlook evidenciam que a extração mundial de materiais triplicou nos últimos cinquenta anos, ultrapassando atualmente os 100 mil milhões de toneladas anuais. Este crescimento não resulta apenas da expansão demográfica, mas sobretudo do aumento do consumo per capita, que passou de 8,4 toneladas em 1970 para 12,2 toneladas em 2020. Sem mudanças estruturais profundas, prevê-se que a extração de materiais aumente cerca de 60 % até 2060.
A escala atual de utilização de recursos constitui o principal fator da tripla crise planetária — alterações climáticas, perda de biodiversidade e poluição — sendo responsável por cerca de dois terços das emissões globais de gases com efeito de estufa e por mais de 90 % da perda de biodiversidade e da pressão sobre a água. A manutenção do atual modelo económico revela-se, assim, incompatível com o cumprimento das metas globais de clima, biodiversidade e redução da poluição.
De acordo com o The Circularity Gap Report 2025 apenas 6,9 % dos 106 mil milhões de toneladas de materiais utilizados anualmente pela economia global têm origem em fontes recicladas — uma redução de 2,2 pontos percentuais desde 2015. O relatório conclui que o consumo global de materiais está a crescer a um ritmo superior ao do crescimento populacional, gerando volumes de resíduos que excedem a capacidade atual dos sistemas de reciclagem. Esta realidade reforça a necessidade de uma transformação sistémica e de uma colaboração multilateral que permita responder de forma eficaz à crescente pressão sobre os recursos naturais.
A análise aos dados do Eurostat evidencia o mesmo problema. Apesar de a Taxa de Utilização de Materiais Circulares da União Europeia ter registado um ligeiro aumento nos últimos 14 anos — passando de 10,7 % em 2010 para 12,2 % em 2024 — o valor da taxa atual evidencia que a economia europeia permanece predominantemente linear. Este progresso gradual, aliado às projeções de aumento da procura de materiais até 2030, indica que a União Europeia não se encontra atualmente alinhada com a meta de duplicar a taxa de utilização de materiais circulares até 2030.
Em Portugal, no ano de 2024, a taxa de utilização circular de materiais registou, segundo dados do Eurostat, um valor de 3 % (era de 1,8 % em 2010), um desempenho significativamente inferior à referida média da UE-27 de 12,2 %. Portugal posiciona-se assim como o 4.º Estado-Membro com a taxa de utilização circular de materiais mais baixa, evidenciando uma integração ainda muito limitada de materiais reciclados no sistema produtivo e uma forte dependência de matérias-primas virgens. (...)
Autor Nuno Mendes Calado
Wood Regulation & Sustainability Manager,
Sonae Arauco Portugal S.A.
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