Entre o fogo e a raiz: redescobrir o valor do mosaico florestal

FOTO MICHAEL BENZ/ UNSPLASH

Há um momento, ao entrar na floresta ao início da manhã, em que o mundo parece abrandar, como se o tempo, cansado da nossa pressa e da contabilidade curta, decidisse alinhar-se por instantes com o ritmo profundo do território; a humidade sobe em véus ténues, a luz infiltra-se entre copas irregulares como lâminas douradas, e o silêncio não é ausência de som, mas respiração coletiva de insetos, aves e folhas que murmuram. Ralph Waldo Emerson tinha razão: a natureza não se apressa e, ainda assim, tudo se realiza; talvez a primeira lição seja esta: a floresta não “acontece”, compõe-se devagar.

Em Portugal, essa composição sempre foi, por geografia e história, um mosaico de montados, carvalhais, bosques ribeirinhos, matos de esteva e urze, prados húmidos, pauis, arribas e áreas abertas intercaladas. A paisagem tradicional era uma arquitetura de bordaduras e estas fronteiras, como a ecologia sabe, são férteis: mais luz, mais diversidade, mais função. Não era acaso estético, mas engenharia ecológica construída ao longo de gerações.

É aqui que o fogo entra, não como fatalidade, mas como elemento natural de uma ecologia mediterrânica que sempre conviveu com a perturbação, desde que esta não fosse amplificada por paisagens desenhadas para arder. O erro moderno foi tratar o fogo como inimigo absoluto e, ao mesmo tempo, criar territórios onde ele se torna extremo. Há, porém, uma distinção essencial: o risco de ignição não é o risco de severidade.

Os matos mediterrânicos, ricos em espécies autóctones, sobretudo em períodos secos, podem ter elevada probabilidade de ignição, mas ardem mais rapidamente, com menor energia libertada e regeneração eficiente. Pelo contrário, grandes manchas contínuas de plantações industriais, pinhais ou eucaliptais, acumulam combustível e continuidade estrutural que favorecem incêndios de elevada severidade, capazes de degradar solos, matar sementes, facilitar invasoras e comprometer a recuperação ecológica.

O problema raramente é “o mato” em abstrato; é a continuidade e a carga num território sem mosaico. Quando, por abandono e simplificação da gestão, se perdeu essa tessitura, o fogo deixou de ser perturbação e passou a catástrofe, como se a paisagem tivesse trocado a capacidade de dissipar energia pela de a amplificar. A Europa conhece bem este fenómeno e mede-o ano após ano: a pressão climática aumenta e a vulnerabilidade estrutural também.

Mas há uma segunda lição, mais prática e esperançosa: se o fogo é parte do sistema, então também pode ser ferramenta, desde que usado com inteligência. O fogo controlado - prescrito, planeado e monitorizado - reduz cargas de combustível, renova habitats e cria descontinuidades. E o pastoreio extensivo, quando bem desenhado, não é adereço folclórico, mas tecnologia territorial: controla biomassa, abre clareiras, fertiliza solos, mantém mosaicos e cria, de forma contínua, aquilo que de outro modo exigiria investimento recorrente e maquinaria pesada. Há algo elegante nesta convergência: a ecologia oferece função, a gestão oferece direção, e o território deixa de ser cenário para voltar a ser sistema. (...)

Nuno Gaspar de Oliveira
Cofundador e CEO da
NBI – Natural Business Intelligence
Docente universitário na área da Economia Natural

Leia o artigo completo na Indústria e Ambiente nº 156, janeiro/ fevereiro de 2026 dedicada ao tema "Foresta - caminhos e oportunidades"

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