Cidades Sustentáveis versus Confinamento: conflito ou solução?

“Gostava de estar no campo para poder gostar de estar na cidade”

in “Livro do Desassossego”, Fernando Pessoa

Em “Civilização”, um dos mais conhecidos contos de Eça de Queirós, embrião de “A Cidade e as Serras”, Jacinto, um cosmopolita, um homem do seu tempo, debate-se, no regresso às origens, e a Torpes, com a escassez de equipamentos, comunicações e com uma inalterada e secular noção da passagem do tempo. Do desencanto, incomodidade e estranheza iniciais, pela falta, por exemplo, de ascensores (que em Paris lhe eram essenciais) para transporte de iguarias da cozinha até à sala, Jacinto “renasce” para um espaço e um tempo que, não sendo o anterior – a mesma água não passa duas vezes debaixo da mesma ponte (Ricardo Reis) – parece novo e livre.

Ao escrever este conto, Eça estava muito longe dos tempos que vivemos e da problemática que se nos apresenta agora como urgente e difícil equação.

É bom recordar que o olhar sobre o espaço que ocupamos, e o modo como o fazemos, é preocupação anterior ao aqui e agora marcados pelo estado de emergência e de confinamento social, e que o tema deste número da revista foi decidido muito antes da pandemia de COVID 19. A premência de uma prática de Cidades Sustentáveis já era imprescindível ontem, antes deste tempo da peste, e hoje sabemos que só com a sua implementação dela nos livraremos.

Hoje, quando tanto esperamos de soluções e de organizações globais, como a Organização das Nações Unidas, pensamos, como ela, em Cidades Sustentáveis, traduzindo esta designação em três grandes tópicos: Cidades com uso eficiente dos recursos; Cidades Limpas e Cidades mais verdes e mais saudáveis.

Até agora, levantando (sempre) o estandarte da Economia, têm prevalecido os movimentos de concentração nos centros urbanos, o abandono dos campos e das regiões do interior. 2007 terá sido o ano em que 50% da população mundial passou a estar concentrada nas cidades e estima-se que em 2050, 70 a 75% da população mundial viva em cidades.

A ironia é que esta tendência de concentração, de desrespeito pelo ambiente, nos conduziu a situações gravíssimas, de risco da própria vida e de sobrevivência da espécie humana, em que é necessário impor medidas de isolamento e distância social. Depois do êxodo para a cidade, possivelmente, se nos fosse dado a escolher, optaríamos agora por viver em áreas rurais com liberdade para respirar ar puro e contactar com a natureza.

Apesar do que estamos a viver, temos consciência de que a concentração nas áreas urbanas vai continuar, mas temos a obrigação de exigir, de construir, de planear e de viver de acordo com os conceitos inerentes às Cidades Sustentáveis.

A História ensina que muitas alterações no modo como as cidades foram sendo pensadas resultaram de situações dramáticas como a actual. Os sistemas de infraestruturas das cidades, as redes de abastecimento e saneamento, por exemplo, são cruciais. Lembremos que a primeira medida de combate à pandemia é “lavar as mãos”, e 40% da população mundial não tem esse direito assegurado. A História ensina que, recorrentemente, as medidas tomadas foram reactivas e não preventivas e pagámos sempre esse preço, com a perda de vidas e enfraquecimento de saúde das populações.

Desta vez temos a tecnologia ao nosso serviço, e de forma assombrosa: temos facilidade de comunicação, o conhecimento disseminado e partilhado, teletrabalho e proximidade visual, apesar da distância física.

Crítico, diria, é a sobrevivência conflituar com a liberdade desejável, também imprescindível e pela qual muitos lutaram.

Não queremos viver assim! Em estado de emergência prolongado ad limite mas, para o evitar, temos de pensar, planear e gerir Cidades (mais) Sustentáveis.

Ao Professor José Carlos Ferreira, co-editor desta edição, agradeço a disponibilidade, envolvimento e partilha de conhecimento. Nele, agradeço também a todos os outros convidados especialistas em diversos tópicos essenciais para a conceptualização e implementação de Cidades Sustentáveis. Obrigada e votos de saúde em Cidades mais saudáveis para todos.

Editorial da Indústria e Ambiente nº121 mar/abr 2020

Leonor Amaral

Diretora da Indústria e Ambiente / Professora na FCT-UNL

Se quiser colocar alguma questão, envie-me um email para lmma@fct.unl.pt

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