...Cinco, quatro, três, dois, um... Ambiente 4.0

“...Planet earth is blue and there’s [a lot] I can do...” 

David Bowie, Space Oddity

Em 1957, a nave não tripulada da União Soviética, Luna 2, alcançou a superfície da lua. Dois anos mais tarde, o mesmo país lançou o primeiro satélite artificial da lua e, em 1961, o cosmonauta Yuri Gagarin viajou pelo espaço, dando uma volta em torno da Terra e regressando são e salvo. No auge da Guerra Fria, e em despique científico, político e tecnológico com os soviéticos, John F. Kennedy, em Maio de 1961, disse que os norte-americanos pisariam a lua antes do final da década. E há 50 anos, em 20 de Julho de 1969, a missão Apollo 11 foi cumprida com êxito.

A conquista do espaço deixou então de ser uma utopia e, naquele dia, no momento em que o “grande salto para a humanidade” foi dado, cumpriram-se os sonhos, os esforço, as visões e as inovações tecnológicas, de engenharia e de novas áreas de conhecimento de muitos homens e mulheres que, com rasgo, passo a passo, tornaram aquela conquista extraordinária num acontecimento quase inevitável. Naquele dia (madrugada em Portugal), o próprio céu deixou de ser o limite. Foi pelo menos nisso que se acreditou então.

Em 50 anos muita coisa se passou na área da indústria, da economia, do ambiente. Continuámos na vertigem dos números, da produção, do lucro, da depleção dos recursos naturais e do acentuar das assimetrias sociais. Orgulhamo-nos de estar na era da Indústria 4.0, em que a produção e o mercado são globais, interconectados, modificados pela revolução das TIC (tecnologias de informação e comunicação), num contexto tecnológico hoje designado pela Internet das Coisas (IoT – Internet of Things) e IoS (Internet of Services), transformando a operação industrial, tanto quanto possível, em “inteligente”, devidamente apoiada por sistemas ciber-físicos (CPS).

A par deste crescendo (Indústria 4.0, Economia 5.0, etc), os aspectos ambientais foram igualmente conquistando espaço e um lugar prioritário para a sustentabilidade. A Agenda 2030, onde se encontram definidas as aspirações globais para a próxima década, é marcada de forma indelével pelos 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Sem o seu cumprimento, a Agenda será um falhanço. A palavra chave é “sustentabilidade”, se queremos manter um qualquer céu que nos sirva de limite.

Mas “Houston: we have a problem”. Sabemos hoje que a inteligência artificial e a robótica são apenas como os anteriores “grandes passos da humanidade”. A par das suas inestimáveis vantagens, trazem consigo dramáticos problemas. Para dar resposta à prioridade máxima em termos ambientais – o combate às alterações climáticas – as tecnologias digitais enfrentam o monstruoso desafio de encontrar soluções para as suas (frequentes) excessivas necessidades de energia, com a consequente emissão de carbono e respectivo impacte.

Investigadores da Universidade de Massachusetts, em Amherst, realizaram uma análise do ciclo de vida para a utilização de vários modelos comuns de inteligência artificial e foi dramático verificarem que, para correr esses modelos, produziram quase cinco vezes as emissões totais da vida de um carro americano médio (incluindo o fabrico do próprio carro)!!!

A história da ciência e da tecnologia prova-nos que muitas conquistas da humanidade vieram, mais tarde, revelar-se ameaças reais para a saúde, para o bem estar, para a qualidade de vida e para a preservação das espécies. A utilização massiva de tecnologias associadas à ciência da computação, com todos os méritos que tem, levanta, ao mesmo tempo, questões de natureza ética e de organização da própria sociedade, problematizadas pelo chamado Humanismo Digital.

E é neste contexto, em que a capacidade visionária do Homem aliada à Tecnologia parece não ter limite, que se impõe um Ambiente 4.0, actual, inovador e também visionário. E é sobre isso que o Engº Theo Fernandes, co-editor desta edição, e os outros autores convidados, nos falam nesta edição da revista. Agradeço-lhes muito a colaboração, convicta de que, nesta área, estamos também a caminho de novas conquistas tão ou mais imprescindíveis para o nosso futuro como espécie como nos anteriores “grandes passos para a humanidade”.

Volto à Lua e recordo a sensação descrita por Buzz Aldrin enquanto caminhava sobre a lua e contemplava a "magnífica desolação" à sua volta. Desejo, com todas as minhas forças, que essa sensação nunca possa ser sentida por nenhum astronauta a respeito do maravilhoso Planeta Azul. Respeite-se a memória e a história tão singela que ficou escrita na superfície lunar: “Viemos em paz e por toda a humanidade”.

Editorial do nº 117 da Indústria e Ambiente

Leonor Amaral

Diretora da Indústria e Ambiente / Professora na FCT-UNL

Se quiser colocar alguma questão, envie-me um email para lmma@fct.unl.pt

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