Gestão da paisagem em Portugal: floresta, fogo e comunidades rurais para uma resiliência climática partilhada

FOTO DEGLEEX GANZORIG / UNSPLASH
A gestão florestal em Portugal deve assumir explicitamente uma função climática: reduzir emissões e aumentar o sequestro de carbono, ao mesmo tempo que diminui o risco de incêndio, reforça a biodiversidade e garante serviços de ecossistema que sustentem economias rurais viáveis.
As florestas portuguesas prestam serviços de aprovisionamento (madeira, cortiça, biomassa), regulação (carbono, água, solo), culturais (recreio, identidade) e de suporte (nutrientes, habitat). A gestão sustentável deve ser multifuncional, equilibrando objetivos económicos, sociais e ecológicos, e valorizando serviços muitas vezes “invisíveis”.
Perante as alterações climáticas, a gestão ativa é fundamental para reforçar a adaptação da floresta, antecipando riscos de incêndio, seca e pragas. A diversificação de espécies, estruturas e usos do solo aumenta a resiliência e reduz a probabilidade de colapso funcional.
A redução do risco de incêndio exige mosaicos de combustibilidade variada, resultantes da alternância de usos e da conversão de formações muito inflamáveis para folhosas autóctones ou sistemas agroflorestais. A silvicultura preventiva deve promover descontinuidade vertical e horizontal, combinando métodos mecânicos, manuais, fogo controlado e silvopastorícia, sobretudo em torno de habitações e infraestruturas.
A adaptação climática requer mais povoamentos mistos, irregulares e de folhosas, substituindo plantações monoespecíficas vulneráveis. A regeneração natural, a silvicultura à escala da árvore e a escolha de espécies geneticamente adaptadas reforçam a estabilidade e produtividade futuras. Os sistemas agroflorestais contribuem simultaneamente para mitigação (carbono), adaptação (resiliência) e preservação de paisagens culturais.
Mosaicos diversificados e ecologicamente conectados reduzem a recorrência de grandes incêndios e reforçam a biodiversidade, gerando habitats para aves, mamíferos e invertebrados. A transição para florestas complexas implica reconhecer e remunerar o valor económico dos serviços de ecossistema, através de instrumentos como pagamentos por serviços ambientais, certificação ou incentivos fiscais. Estes mecanismos alinham objetivos climáticos e de biodiversidade com rendimentos sustentáveis para comunidades rurais. (...)
Autor Bruna R.F. Oliveira, lnvestigadora, Departamento de Ambiente e Ordenamento, Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), Universidade de Aveiro
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