Sustentabilidade não pode ser uma palavra gasta

Temos assistido, por diversos motivos, e através de vários meios de comunicação social, redes sociais incluídas, a situações, acontecimentos dantes excepcionais e agora comuns (ciclones, tempestades, desertificação de territórios, aumento da temperatura dos oceanos, etc) que chamam a nossa especial atenção para aspectos relacionados com o Ambiente e para as grandes temáticas que lhe estão associadas.

Personalidades como David Attenborough, Barack Obama, Al Gore, António Guterres, Harrison Ford e até o papa Francisco, bem como múltiplos cientistas e técnicos, têm evidenciado que a situação em que nos encontramos não é de urgência, mas já de verdadeira emergência se quisermos mitigar alguns dos atentados que temos feito ao nosso próprio planeta, sendo que alguns poderão ser já irreversíveis.

Para além das personalidades e das organizações oficiais, a sociedade civil está verdadeira e genuinamente empenhada neste combate e no alerta quanto às alterações climáticas. Saliente-se neste âmbito a intervenção das ONG ligadas ao Ambiente, iniciativas tais como “555 mil passos a pensar o Ambiente” ou o fenómeno de capacidade de mobilização das camadas mais jovens, “lideradas” por uma rapariga muito jovem, Greta Thunberg, que conseguiu galvanizar os interesses da juventude em vários países, levando-a a organizar-se e a orquestrar internacionalmente greves contra as mudanças climáticas e a ausência de decisões políticas eficazes sobre a matéria que salvaguardem o planeta e o seu futuro.

Numa sociedade demasiado materialista, guiada por visões individualistas, é muito tocante percebermos que a capacidade de organização e de mobilização não se perdeu, e que não irá atenuar-se, quando as causas são tão nobres como estas, sendo que as camadas jovens estão conscientes que terão que ter acesso a informação, ser exigentes com aqueles que decidem e que, enquanto colectivo, estão disponíveis para alterar os paradigmas dos valores com que temos vivido.

O tema deste número é Sustentabilidade e transição energética. Teremos todos a noção que a transição energética é crítica para se poderem atingir as Metas da Sustentabilidade e poder dar cumprimento aos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável. Podemos assumir como um bom indício o facto de, actualmente, a designação do Ministério da área, ser Ministério do Ambiente e da Transição Energética. Não é uma simples mudança de nome, é um símbolo de mudanças mais profundas que precisamos de construir.

As imagens, as estatísticas, os números, os modelos, os factos são de todos conhecidos, sabe-se o que se pode fazer e que está ao nosso alcance para mudar esta situação, contando com os cidadãos, as organizações, as empresas e os políticos.

Tenhamos todos a coragem de perceber que tudo conta, todas as acções, por mais pequenas e insignificantes que possam parecer, fazem a diferença, que os nossos hábitos de vida têm que mudar.

Numa sociedade global como a nossa, o problema tem de ser encarado também globalmente mas, ao nível dos países, as situações são muito diferentes do ponto de vista económico, social e de desenvolvimento tecnológico. Como é óbvio, os países menos desenvolvidos estão ainda mais vulneráveis do que os mais desenvolvidos e sob todos os pontos de vista.

Pensar que a mudança possa ser apenas local, não é opção. A mudança terá de ser um pacto à escala global, por todos, para todos, pelo futuro que só é viável se assegurarmos a Sustentabilidade do planeta.

Este número tem um co-editor, o Engenheiro Pedro Sirgado, a quem agradeço toda a colaboração e a sugestão de um conjunto de testemunhos e visões, a nível nacional e internacional, relativos à sustentabilidade nas empresas, as perspectivas das propostas de planos e políticas para a transição energética e para o objectivo da neutralidade carbónica.

A Sustentabilidade, hoje tão mencionada e apregoada, que aparecendo escrita parece validar qualquer proposta, é um valor em si que tem de ser defendido. Não podemos permitir que passe a ser uma palavra oca, sem conteúdo, sem um verdadeiro significado.

A Sustentabilidade não pode cair na qualidade das palavras gastas até porque, como diria José de Almada Negreiros, apesar de já não “(...) [sermos] do século de inventar as palavras [porque] as palavras já foram inventadas. Nós somos do século de inventar outra vez as palavras que já foram inventadas.”

Leonor Amaral

Diretora da Indústria e Ambiente / Professora na FCT-UNL

Se quiser colocar alguma questão, envie-me um email para lmma@fct.unl.pt

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