Reciclagem de águas cinzentas: uma fonte alternativa para o futuro

O crescimento populacional e melhoria das condições de vida têm vindo a exercer pressão sobre diversos recursos naturais, onde a água, pelo seu papel fundamental, merece especial atenção e uma posição de destaque.

Esta situação, conjugada com os efeitos expectáveis das alterações climáticas, no sentido de alterar as disponibilidades hídricas na generalidade do globo, tem conduzido à procura de soluções alternativas do recurso água, de forma a poder dar resposta às necessidades humanas, e assegurar simultaneamente o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.

As águas cinzentas, que constituem a componente não sanitária das águas residuais, correspondente a águas provenientes de lavatórios, duches e lavagens de roupa. Estes efluentes apresentam um potencial significativo de reutilização, dadas as suas características específicas, e poderão constituir um recurso alternativo para dar resposta a parte das necessidades hídricas no futuro.

Pela natureza das atividades que lhes deram origem, as águas cinzentas apresentam baixo teor em matéria orgânica, nitratos e fosfatos, assim como uma reduzida componente bacteriológica. As águas provenientes de lava-louças e máquinas de lavar louça são excluídas por diversos autores desta componente dado que apresentam níveis de mate´ria orgânica mais elevados, assim como gorduras, o´leos e detergentes, que requerem um tratamento mais complexo e oneroso antes da sua reutilização.

No que diz respeito a utilizações domésticas, as águas cinzentas representam cerca de 70% das águas residuais produzidas. Nos sistemas domésticos o seu tratamento permite reciclar uma percentagem significativa das águas residuais, podendo conduzir a uma redução no consumo de água potável até 50%. Diversos estudos indicam que a reutilização de águas cinzentas apenas na descarga de autoclismos conduz a uma redução no consumo de água potável de cerca de 30%. Para além da reciclagem na descarga de autoclismos, as águas cinzentas tratadas podem ser igualmente reutilizadas na irrigação de áreas verdes e limpezas diversas. Quando a reutilização é realizada na irrigação de jardins e culturas é igualmente importante a monitorização dos solos, uma vez que a utilização de água reciclada a longo prazo poderá contribuir para a acumulação de compostos no solo, tais como surfactantes. Pela sua natureza, o tratamento e reutilização pode ser instalado tanto em zonas residenciais como em escritórios de serviços.

A possibilidade de utilização de água reciclada perto do local onde foi produzida permite, assim, aproximar o ciclo urbano da água a um ciclo mais fechado, contribuindo para a implementação da Economia Circular.

Esta mudança de paradigma requer um tratamento adequado à utilização, que deverá ser precedido por um reservatório de armazenamento das águas cinzentas não tratadas para regularização de caudais. No dimensionamento da estrutura de armazenamento deve garantir-se um tempo de residência médio inferior a 24 horas, para evitar o desenvolvimento de microrganismos e a formação de maus odores.

As opções de tratamento recomendadas para águas cinzentas são diversas e incluem geralmente uma etapa de pré-tratamento para separação de sólidos, seguida de tratamento por processos de filtração (filtros de areia ou filtração no solo) ou processos biológicos como discos biológicos ou biomembranas. No final da linha de tratamento existe geralmente uma etapa de desinfeção, destinada a garantir a qualidade microbiológica da água reciclada.

Após o tratamento, a utilização da água reciclada deve ser realizada assegurando o transporte através de uma rede independente da rede de água potável.

Mais recentemente, tendo vindo a ser desenvolvida por diversos autores uma tecnologia promissora, com elevado potencial de integração no tecido urbano, composta por paredes verdes adaptadas para receber águas cinzentas e realizar a respetiva depuração. Exemplos demonstrativos desta tecnologia foram já implementados em espaços públicos no âmbito de projetos de investigação, incluindo o hotel Samba, em Lloret del Mar, Espanha (Projeto demEAUmed)  ou o edifício de escritórios da Agência de Água e Saneamento de Pune, Índia (Projecto FP7 NaWaTech).  Um dos principais atrativos desta abordagem reside nas mais-valias associadas à instalação de paredes verdes em edifícios, onde se engloba a redução das necessidades de climatização, redução do efeito de ilha de calor e introdução de espaços verdes no tecido urbano, contribuindo assim para o bem-estar das populações a diversos níveis.

Ana Galvão

Professora Auxiliar no IST

Se quiser colocar alguma questão, envie-me um email para ana.galvao@tecnico.ulisboa.pt

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