Quando o residual pode ter muito valor

É um enorme desafio assinar pela primeira vez o editorial desta revista – que atingiu um indiscutível patamar de excelência com o anterior director – mas, ao mesmo tempo, é muito entusiasmante fazê-lo num número especialmente dedicado à análise do valor escondido das águas residuais.

A água e o tratamento de águas residuais continuam a ser “o tema do momento”, apesar de o mundo viver em “tempos separados” estas realidades. Em Portugal, apesar de existirem cerca de 84% dos alojamentos servidos com drenagem e 83% dos alojamentos servidos com tratamento de águas residuais, o tema não tem menor actualidade do que noutros países onde, infelizmente, estas taxas são, ainda, meras quimeras. Poderia assim pensar-se que este não seria um problema nacional só que, como todos tão bem sabemos, vivemos num mundo global e numa interdependência absoluta.

Decidimos, por isso, dedicar este número ao “Tratamento de águas residuais: actuais desafios”, reconhecendo a sua vastidão mas tendo em conta a sua urgência. Os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e a Agenda 2030, adoptados pela quase totalidade dos países do mundo, no contexto das Nações Unidas, onde se definem as prioridades e aspirações do desenvolvimento sustentável global para 2030, têm um ponto especificamente dedicado a este assunto (Objectivo 6 - Água potável e saneamento) através do qual se pretende garantir a disponibilidade e a gestão sustentável da água potável e de saneamento para todos.

Devemos lembrar-nos que um terço da população mundial não tem acesso a uma casa de banho e que quase metade da população mundial não tem acesso a um sistema privado e seguro de saneamento. Quantos saberemos, e quantos reconheceremos o valor da decisão tomada pelas Nações Unidas em 2013, de estabelecer o dia 19 de Novembro como o dia mundial da casa de banho (World toilet day)? E quantos teremos consciência de que este dia, especificamente, também pretende responder a um outro ODS, o 5, que estipula a necessidade de alcançar a igualdade de género. O problema das casas de banho afecta de forma ainda mais relevante a população feminina, havendo milhões de mulheres que têm que se afastar mais de 300 metros das suas casas para satisfazer as suas necessidades sanitárias e, ainda noutras culturas, são obrigadas a total isolamento, podendo por exemplo morrer de frio, durante os seus períodos menstruais. É chocante, e intolerável, confrontarmo-nos com o facto de que há mais pessoas no mundo com telemóveis do que com sistemas (mesmo que mínimos) de saneamento.

Olhando para o panorama mundial é impossível não reconhecer a situação de privilégio em que vivemos em termos de tratamento de águas residuais. No entanto, e apesar disso, em Portugal mantêm-se múltiplos desafios que urge enfrentar, quer do ponto de vista técnico, quer do ponto de vista de paradigma da gestão do ciclo urbano da água.

No tratamento de águas residuais foi necessário, e continuará a sê-lo, lidar com normativos cada vez mais exigentes, tal como já acontece com o que diz respeito aos micropoluentes de natureza e origens múltiplas e às condições criadas pelas afluências indevidas oriundas de fenómenos climáticos extremos, relacionados com as alterações climáticas.

Por outro lado, a idade das infraestruturas existentes terá que ditar as suas reabilitações, criando aí oportunidade para optar por sistemas optimizados, quer do ponto de vista de eficiência processual, quer da eficiência energética, visando contribuir para a neutralidade carbónica e para garantir as metas estabelecidas para a reutilização da água residual tratada.

A inovação tem estado presente neste sector e há avanços e experiências relevantes naquilo que é a revolução digital e no incremento da utilização de novas áreas, tais como a Inteligência Artificial em campos relacionados, por exemplo, com o controlo mais eficiente do processo, com utilização de histórico de dados em tempo real, contribuindo para uma automação mais rigorosa apoiada fortemente em modelação, aliviando o peso de todos os envolvidos na operação e manutenção.

Outro dos desafios presentes está ligado à monitorização das linhas de tratamento, onde os sensores têm um papel crítico para ser explorado. No que diz respeito à monitorização da qualidade da descarga, a inovação está a dar passos significativos numa abordagem integradora, cuja versão mais actual é a metabolómica (“Metabolomics approach”), associada à análise de risco e com uma utilização mais generalizada de bio-ensaios.

Eventualmente, o aspecto mais diferenciador, e mais disruptivo, nesta matéria terá que ser o modo como as infra-estruturas de tratamento de águas residuais terão de ser encaradas na óptica da sustentabilidade ambiental, passando a encarar-se as ETAR num enquadramento da tão presente economia circular, em que as ETAR serão “Fábricas de Água”, onde se promove a recuperação de recursos, transformando-as de consumidoras em produtoras de energia, água e produtos.

Creio que a qualidade e actualidade dos artigos reunidos neste número não desiludirá os leitores. E espero, no momento em que sigo as passadas do anterior director da Indústria e Ambiente (IA), o Professor António Guerreiro de Brito, não vir também a desapontá-lo, ou aos leitores, pela direcção que agora inicio. Ao professor António Brito, agradeço ainda ter-nos brindado com uma entrevista, não só como ex-director mas, sobretudo, enquanto personalidade de reconhecido mérito na área do tratamento de águas residuais.

Leonor Amaral

Diretora da Indústria e Ambiente / Professora na FCT-UNL

Se quiser colocar alguma questão, envie-me um email para lmma@fct.unl.pt

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