"Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?"

Desde 1908, com o lançamento do Ford T, parece que pouco mudou: quatro pneus e um volante, além do motor. Na verdade, continuamos a olhar para a estrada, por vezes para o retrovisor, a acionar os piscas, a usar os pedais, a rodar o volante e a meter mudanças. Assim parece há mais de 100 anos, mas a verdade é que muito se alterou nesse período em múltiplos aspetos, tomando como exemplo a segurança viária. Em 2014, ocorreram menos 25% de acidentes fatais nas estradas portuguesas, quando comparado com o valor de 1960. Essa evolução merece o agradecimento a todos os que têm contribuído para mitigar esse flagelo.

Do produto para o serviço

Ao lermos as notícias avançadas por diversos construtores e conhecendo as parcerias que começam a estabelecer, entende-se que estamos a assistir a uma mudança radical no setor automóvel, em especial no seu relacionamento com o condutor e com as cidades. Com efeito, perceciona-se a inevitável chegada das viaturas sem condutor, onde seremos uma espécie de viajantes instalados em computadores com rodas. Nessa fase, deixaremos de ser condutores ativos e poderemos começar a esquecer o exame de condução. Esta mudança poderá, finalmente, encorajar uma outra no caminho para a sustentabilidade, a mudança da perspetiva do produto para a do serviço, desmaterializando a propriedade. O aumento dos serviços de partilha de carros será inexorável. Existem estimativas que indicam que, se os carros não ficassem estacionados à espera que voltemos a dar-lhes um novo uso, mais de 50% dos carros nas grandes cidades poderiam ser desnecessários. Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio? Era assim que Álvaro de Campos ia ao volante, pela estrada de Sintra. Eis o dilema da transição para a mudança, sem deixarmos de ser nós.

Viaturas e território: trajetória inovadora

É claro que, para além do transporte individual, também estão a ser desenvolvidos transportes rodoviários públicos sem condutor, em estradas onde existirão todo o tipo de veículos, como já testado nos Países Baixos. Verificamos, portanto, que há uma trajetória inovadora no relacionamento das viaturas com o território, a qual também se dirige para o uso eficiente de recursos escassos e a minimização de impactes ambientais negativos, com uma redução, verdadeira, de emissões. É neste contexto que o cluster português do setor automóvel e de componentes demonstra uma vitalidade que nos faz acreditar na sua capacidade para enfrentar os novos desafios.

Por último, não poderia deixar de fazer uma referência ao 13º Congresso da Água, o tradicional evento promovido pela nossa Associação Portuguesa de Recursos Hídricos (APRH) e que esta edição da Indústria e Ambiente [número 96] referencia. Após 2015, onde tivemos períodos de seca severa em algumas zonas de Portugal, seguiram-se situações graves de inundações, com prejuízos humanos e materiais. Estes extremos estão muito presentes na gestão de recursos hídricos e, para fazer face a esses (e outros) extremos, é necessário uma governação que una as pessoas e as empresas para o valor explícito e implícito que a água representa em Portugal.

António Guerreiro de Brito

Diretor da Indústria e Ambiente / Professor no Instituto Superior de Agronomia

Se quiser colocar alguma questão, envie-me um email para agbrito@isa.ulisboa.pt

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