Negócios inclusivos na área do ambiente

Os dezassete Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) são uma fonte inspiradora para todos nós, mas com valor mais tangível para alguns. Em primeiro lugar, para os quatro mil milhões de pessoas (!) que estão na base da pirâmide social, segundo o Banco Mundial/IFC (Jenkins et al., 2011). Podemos pensar que esta estimativa peca por excesso, mas podemos atender a alguns números indicativos. Sem acesso a água potável e casa de banho, são mais de 923 milhões e 2.4 mil milhões, respetivamente. Sem acesso a eletricidade são 1.2 mil milhões, mas são 2.7 mil milhões que ainda usam biomassa tradicional para cozinhar. Em Portugal, cerca de 2 milhões de pessoas vivem perto do limiar de pobreza e veja-se a preocupação manifestada recentemente com o flagelo dos sem-abrigo. Na Índia, onde o governo português fez uma recente deslocação, e bem, serão cerca de 700 milhões com vários níveis de rendimento. São sempre muitos milhões mas ainda falta um, o que indica que serão necessários entre 30 a 50 mil milhões de euros ao longo dos próximos 15 anos para alcançar os ODS. É um valor impossível de reunir. É verdade que sempre existem incertezas sobre estes montantes assustadores. É verdade que, em muitos casos, o problema não é apenas o dinheiro (antes fosse, diria) mas, se esse for o caso, acresce que os fundos públicos disponíveis apenas permitirão reunir uma pequena parte, provavelmente entre 4 e 6% desse valor. Portanto, algo mais tem que ser feito e terá de ser de forma diferente do habitual.

Talvez uma nova perspetiva seja útil, o designado “negócio inclusivo”, onde se combinam vários modelos e abordagens. Os ODS constituem uma necessidade humana que, sem desprimor, pode ser conjugada com uma oportunidade económica. O negócio está na identificação de um potencial mercado e no desenvolvimento de um modelo que, ao combinar formas de capacitação (e.g.: um emprego local) e geração de algum lucro, permite libertar valor para o pagamento do bem ou serviço. Este tipo de abordagem sustenta-se na compreensão dos custos reais que as pessoas na base da pirâmide social enfrentam, no entendimento do que precisam e do que conseguem oferecer, combinando bons objetivos, boa governação e um financiamento apropriado. Um pequeno exemplo: Portugal possui 83% de taxa de atendimento de resíduos sólidos. Não pode a margem que falta ser atingida por algo diferente? Creio que sim.

Devemos replicar o que de bom se faz lá fora e as experiências bem-sucedidas em diferentes geografias, também no domínio do ambiente. Por isso, aplicando as políticas públicas de incentivo às compras inovadoras, seria muito interessante que as reguladoras dos serviços de água e resíduos e dos serviços de energia encorajassem sistemas mais flexíveis em situações relativamente marginais em termos de custo-eficácia. Incentivar-se-ia, dessa forma, o desenvolvimento de bens e serviços técnicos e financeiros inovadores com impacte social. Em alguns casos, esses sistemas podem mesmo aproximar-se dos princípios da economia circular. Finalmente, além disso, quem sabe se um dia essas novas tecnologias não poderiam ser exportadas já que, lamentavelmente, não temos muitas.

Jenkins B., Ishikawa E., Geaneotes A., Baptista P., Masuoka. T (2011). Accelerating Inclusive Business Opportunities: Business Models that Make a Difference. Washington, DC, IFC. 

António Guerreiro de Brito

Diretor da Indústria e Ambiente / Professor no Instituto Superior de Agronomia

Se quiser colocar alguma questão, envie-me um email para agbrito@isa.ulisboa.pt

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